Discriminar é pecado?

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 05 Março 2021
Discriminar é pecado?
  • Alberto Magalhães

 

 

A propósito da ideia de um passaporte Covid e das objecções éticas que logo se levantaram, afirmei, aqui, há dias, que “discriminar é, às vezes, imprescindível”. Volto ao assunto, pois a ideia de “discriminação” está cada vez mais mal vista, nos meios bem-pensantes. De tal modo que, qualquer dia, os ginecologistas poderão ser acusados de hedionda discriminação, se insistirem em ter apenas clientes do sexo feminino.

Ora, discriminar começa por ser uma função cognitiva essencial, que permite a cada um de nós separar o trigo do joio, tratar de forma diferente o que é diferente, não meter tudo no mesmo saco. Abrir a porta a um amigo não é o mesmo que deixar entrar um desconhecido. Quem tem problemas em discriminar com sensatez, acaba rapidamente por se meter em maus lençóis. Isto, que é uma verdade óbvia para os indivíduos, aplica-se também aos Estados. Discriminam entre os nacionais e os estrangeiros, entre os cidadãos cumpridores e os criminosos, entre os adultos e as crianças, entre as pessoas autónomas e as que precisam de apoios, apenas para mencionar algumas, mais óbvias, discriminações. Legítimas, desde que cumprindo direitos humanos básicos, as leis nacionais e os tratados internacionais.

O argumento principal, em relação ao passaporte Covid, é que, não existindo vacinas à disposição de todos, seria pouco ético usá-lo, pondo em vantagem os que já a tomaram. Aplicado à letra, ao Titanic, este horror à discriminação levaria, não havendo salva-vidas para todos os passageiros, à conclusão de que, por questões éticas, estes deveriam ir todos ao fundo, para não discriminar ninguém.

Dito isto, enquanto não se souber mais sobre as vacinas e o seu grau de protecção, a discussão é bizantina, pois os testes continuarão a ser exigidos, por precaução, na maior parte das fronteiras.

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