Dívidas e populismos

Nota à la Minuta
Terça-feira, 11 Maio 2021
Dívidas e populismos
  • Alberto Magalhães

 

Bárbaros eram os tempos em que passar um cheque sem provisão ou não conseguir pagar uma dívida em devido tempo, podia dar direito a passar meses, ou mesmo anos, na prisão. No princípio do século XX, alguns ricaços, quiçá banqueiros ou industriais, lançados na falência mercê de alguma imprudência ou de crise inesperada e brutal, chegavam a pôr termo à vida por uma estrita questão de honra, um conceito caído em desuso e que hoje se torna tão difícil de entender como o harakiri do samurai.

Hoje em dia, pelo menos no nosso país, vivem-se tempos menos exigentes, se não para quem não consegue pagar as prestações da habitação que teve de comprar, decerto que para quem assume calotes de relativa grandeza, da ordem, vá digamos, das muitas dezenas – ou mesmo centenas – de milhões. Por exemplo, 36 caloteiros deviam, por junto, ao Novo Banco, em Novembro, 4150 milhões de euros, daquelas dívidas incobráveis que dão pelo nome de imparidades. Uma modesta média de 115 milhões por bico, que nós, pacatos contribuintes, sem posses para planeamento fiscal adequado, andamos a pagar.

Algumas das aves envolvidas têm-se pavoneado pela Assembleia da República, parecendo tontos uns, indignados outros, desavergonhados quase todos. Tal espectáculo dão ao povo que ao povo chega a apetecer incumbir os deputados da Nação de abrirem uma excepção para quem dever, vá digamos, mais de 50 milhões, e não se esforce por pagá-los honradamente. Gaiola com eles, para dar o exemplo e estancar a hemorragia, ou melhor, a cleptocracia. É uma ideia populista, concedo. Mas apetece!

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