Dos Abraços de Urso e da luta que continua

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 07 Fevereiro 2022
Dos Abraços de Urso e da luta que continua
  • Maria Helena Figueiredo


Nas últimas semanas o país tem vivido suspenso das eleições legislativas de dia 30 de Janeiro, que marcarão não apenas os próximos 4 anos como, mais que isso, deixarão marcas na nossa história política.

O Partido Socialista ganhou as eleições com um resultado em que ele próprio já não acreditava. Construiu a sua maioria absoluta à custa dos partidos à sua esquerda, que o ajudaram a ser governo por 6 anos e que saíram agora derrotados

Os eleitores não esqueceram os tempos de Passos Coelho e, num cenário de bipolarização, bombardeados por sondagens que anunciavam o regresso do PSD como provável, reagiram a um possível regresso da direita aliada ao Chega.

A análise que faço deste acontecimento é naturalmente marcada pela minha opção política.

O Bloco de Esquerda teve uma pesada derrota. Não foi capaz de fazer chegar à opinião pública as razões do voto contra o orçamento de Estado, uma proposta insuficiente para fazer face aos desafios que estamos a viver na saúde, no trabalho, no clima e a narrativa de António Costa, amplificada pelas televisões e pela generalidade dos comentadores avençados imputaram ao Bloco a responsabilidade pela alegada crise política.

Mas apesar disso há factos que a cada dia tornam mais evidente de quem foi a responsabilidade e que, como diria António Costa, a história explicará.

É preciso voltar a 2015 e lembrar que, então, foram os partidos à esquerda do PS, que desafiaram o Partido Socialista, que não tinha ganho as eleições, a negociar e a formar governo para travar as malfeitorias do Governo PSD /CDS que se gabava de ir além da troika e se preparava para prosseguir na senda do empobrecimento de quem trabalha. Um quadro em que foram cortados salários e pensões, extinguidos serviços públicos e sectores chave da nossa economia foram vendidos a multinacionais e ao Estado Chinês.

O Bloco de Esquerda viabilizou um governo minoritário de António Costa, vinculando-o formalmente a uma governação de reposição dos salários e das pensões e travagem do desmantelamento dos serviços públicos, bem mais à esquerda do que o programa do PS previa.

Quatro anos de melhoria, ainda que tímida, do salário, da pensão, de mais apoios sociais e diminuição do desemprego, que António Costa e o Partido Socialista averbaram como sendo méritos exclusivamente seus, descartando os parceiros à sua esquerda que foram, de facto, quem pressionou o governo para a correção dessas injustiças. E, nas legislativas de 2019, o PS cresceu, rejeitando agora amarrar-se a acordos formais com os parceiros de “geringonça”.

Livre dos “empecilhos” António Costa sonhou a maioria absoluta, e impôs um orçamento, sabendo que os partidos à sua esquerda tinham como limite os seus programas e não podiam ceder a troco de nada ao Partido Socialista.

Foi uma narrativa bem urdida e bem executada.

António Costa tem agora quatro anos para governar, com muito dinheiro da bazuca europeia, sem necessidade de entendimentos e com um Parlamento com capacidade de fiscalização enfraquecida.

Em maioria absoluta é sempre clara a viragem dos governos à direita e o aplauso que vimos de banqueiros e do patrão dos patrões dá-nos já o sinal de como poderá ser a próxima governação.

O PSD, com menos deputados que há dois anos e sem estratégia, pagou pela falta de clareza nas alianças e pela normalização do Chega. E muito fragilizado, não terá nem élan nem capacidade para fazer efectiva oposição. Acossado à direita pelos liberais do IL que preparam um take-over ao eleitorado mais jovem da direita e pelo Chega que não lhe largará os calcanhares, pouca energia sobrará ao PSD para fazer oposição ao PS. E qual dos seus barões quer agora pegar no partido quando pela frente estão quatro anos de travessia do deserto?

Por seu turno o CDS desapareceu da cena parlamentar e veremos se da política

Nestas eleições a porta da democracia escancarou-se e a extrema direita, levada ao colo pela comunicação social, cresceu:

O IL, mais dado ao marketing, vendeu, em sound bites, uma falsa modernidade das propostas e o “liberalismo económico” do “cada um por si é que é bom”; O Chega, saudosista do antes do 25 de Abril, boçal, racista, misógino e homofóbico, usando as mesmas técnicas que Trump e Bolsonaro, vai tirando dividendos do discurso de ódio e do ataque aos grupos mais frágeis da sociedade.

Um e outro, ainda que de forma e por razões diversas, farão do Parlamento o seu palco mediático, mais interessados em granjear adeptos do que na governação do país.

Será novamente à esquerda do Partido Socialista que a fiscalização da acção do governo se fará e será a Esquerda que continuará a levar ao parlamento as propostas para reforçar o Serviço Nacional de Saúde, a escola Pública ou para a revisão da legislação laboral, que não deixa o salário médio dos trabalhadores crescer, e que estará na rua sempre que for preciso.

Até para a semana!

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