Dos comentários e comentadores

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 22 Fevereiro 2024
Dos comentários e comentadores
  • Nuno do Ó

As próximas eleições legislativas acontecerão, como todos já devem saber, no próximo dia 10 de março. Até ao dia do voto, o que deveremos fazer é questionar e procurar esclarecimento, para que se possa fazer a melhor escolha dos nossos representantes, daqueles que terão as melhores condições para nos proporcionar o melhor futuro possível.
Para isso é necessário descortinar a verdade dos factos, evitando ser tendencioso mas não deixando de dar os nomes aos bois, esperando que as consciências acordem e que não se deixem enganar pelas máquinas de comunicação, que, sem interesses nobres, estão acima de tudo preocupadas em levar a massa ao seu baú, apesar do que se vê e do que tentam ocultar, razão pela qual vou insistindo, nestas e noutras palavras.
Acredito num mundo sem ricos e sem pobres, e assim, sem necessidade de guerras, onde que todos terão direito à sua paz, a uma vida digna, para si, para os seus e para os dos outros, onde a justa divisão da riqueza possa ser uma realidade, ao invés dos que acreditam, religiosamente, no indivíduo e na lei do mais forte. No final de contas, é a questão fundamental que nos deve levar a pensar. Saber se queremos um mundo em que todos tenham acesso ao fundamental, por igual, ou se, por outro lado, manteremos este caminho para um mundo desigual, dividido entre ricos e pobres, entre trabalhadores e capitalistas. É tão simples quanto isso. E é isso que estará em jogo, neste como noutros momentos de decisão.
Infelizmente, as regras do jogo, ditadas pelos poderosos, não pretendem deixar opção de escolha, para que do alto da sua riqueza e poder, o possam fazer por nós, escolhas que invariavelmente, pagaremos com o nosso trabalho ou com o nosso sangue. Por isso é tão importante escolher, particularmente se ainda podemos, em democracia.
Mesmo que, todos os dias sejamos bombardeados pelas opiniões dos pseudocomentadores encarregados de perpetuar os interesses daqueles que lhes pagam, bem seguros nas suas cadeiras de onde propagam a voz do poder e que de independência, nada têm, muitos deles até ex-governantes, como Paulo Portas ou Marques Mendes.
É por isso, que aqui chegados, depois de marés de opiniões fantásticas, é surpreendente verificarmos que nada parece mudar. Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres não deixam de existir. Os negócios ilícitos continuam. Os paraísos fiscais também, tal como as zonas francas de lavagem de dinheiro. Continuamos com um ordenado mínimo bem curto e com ordenados de administradores e CEOs gigantescos, sem qualquer moralidade. Os trabalhadores continuam a trabalhar, cada vez mais horas. Os imigrantes e emigrantes, que alguns continuam a tratar como usurpadores, também, embora todos continuem a trabalhar para ajudar a enriquecer o nosso mundo. E o mundo dos ricos do Leste. E dos ricos da Ásia. Será caso para pensar…
E é mesmo por isso que não querem o povo a pensar. É por isso e nada mais, que o opositor russo Navalny morreu às mãos de Putin, o capitalista dono da Rússia, a quem os seus adversários comentadores, deste lado, gostam de chamar de comunista, mesmo sabendo que nunca o foi, apenas para que ele não se pareça connosco, que o é. Por isso é que, ainda em 2018, o jornalista saudita exilado Jamal Khashoggi foi torturado, assassinado e esquartejado por um esquadrão da morte em pleno consulado saudita, de que os tais comentadores já esqueceram, tal como esqueceram as sanções que nunca existiram contra a Arábia Saudita. Por isso parecem ignorar a prática que levou ao assassínio de tantos homens como Kennedy, Martin Luther King, Allende ou Ghandi.
Por isso se ignoram os já 30 mil mortos na Palestina, assassinados sem dó nem piedade, por bombardeamentos israelitas, perpetrados em territórios palestinos que nunca conseguiremos ver desocupados, apesar das falsas juras do ocidente. Por isso se esquecem os jornalistas assassinados em Israel ou em Gaza, os crimes no Afeganistão ou a destruição do Iraque. Afinal, esquecem-se as vítimas, palestinas, israelitas, russas ou ucranianas, porque essas vítimas são apenas do povo. Os que aqui nos trazem, os donos disto tudo, ficam em casa, lá longe, a contar as notas, a ordenar as matanças e a enriquecer com elas.
Assim mesmo, na Ucrânia, está quase tudo resolvido e pronto para a divisão do saque. Primeiro o cerco da NATO à Rússia, pela fronteira de 9 países “amigos” e “pacíficos”. Depois ignora-se um golpe de Estado na Ucrânia. De seguida designa-se o humorista ideal, prometemos-lhe a NATO, ignora-se a segregação das comunidades russas, a guerra civil no Donbass e 14 mil mortos. Finalmente, não mexemos uma palha para evitar a guerra e juramos defender a Ucrânia até ao último ucraniano, vendendo tudo o que temos para a prevalência da guerra. Depois de tudo destruído, na Ucrânia como em Gaza, está pronto. Há que pagar a reconstrução, para o que já teremos o dinheiro e os empreiteiros. E falta a cereja no bolo. Criado o medo da guerra, tal como já anunciou o chanceler alemão Olaf Scholz, preparamo-nos todos para aumentar exponencialmente os orçamentos para a indústria da defesa, em conformidade com as metas da NATO. Os senhores da guerra agradecem. A receita parece infalível e deve dar que pensar.
Os povos do mundo, russos, ucranianos, israelitas ou palestinianos, esses, já só podem lamentar, uns mais que outros, perante aquilo que nunca os dividiu. Os que dividiram os povos para reinar, mais uma vez, esfregam as mãos de contentes, com os lucros que se adivinham.
Por isso mesmo, a luta à esquerda é sempre mais difícil, porque a mentira é mais fácil de perpetuar, ao contrário da verdade, que parece que chega sempre tarde, às vezes demasiado tarde. Não é que a verdade não esteja à vista. Basta querer vê-la… de olhos bem abertos!

Até para a semana!

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