É crime e define um carácter, não é um direito nem uma opinião

Crónica de Opinião
Terça-feira, 09 Junho 2020
É crime e define um carácter, não é um direito nem uma opinião
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Falo do racismo. Do que se perpetua, disfarçado de medo. Temos medo do que é agressivo e ameaçador. Receamos o desconhecido. Não podemos, nem devemos, fazer dos nossos receios e medos uma desculpa para julgar, sem provas, o outro. É isso que, argumentando com desculpas, faz o racista, mesmo quando não chega a vias de facto e faz uma conversa ligeira. Já só mesmo quando julga, pela diferença, a aparência.
Vivi em África, para onde fui com meses, até aos cinco ou seis anos. A minha mãe nasceu em África, o meu avô paterno nasceu em África. Da família materna, houve quem ainda regressasse à “metrópole”, houve quem já regressasse a Portugal, houve quem não regressasse. Como em quase todas as famílias, havia racistas, como houve quem desse cor à descendência que aumentou e enriqueceu a família com nova família. Mas nunca assisti ao fim do racismo, a não ser na lei, no papel.
O primeiro livro que li e que me fez chorar convulsivamente, teria 12 ou 13 anos, foi A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe. Reli-o adultissima e pensei que, com aquela linguagem, literária mas uma estopada de época, só mesmo o enredo e o retrato daquela América esclavagista me podia ter feito chorar tanto.
Sou, sinto e vivi isto tudo, mas não sei do que estou a falar: sou branca e funcionária pública com vínculo ao Estado de um país democrático. Daqueles em que os eleitores vão ainda percebendo que ir atrás de personalidades que se autopromovem com o isco anti-sistema, o que sobrevive graças ao mantra “eles e nós”, só nos desgoverna. Tivéssemos nós dúvidas que aí estão, Trump e Bolsonaro, eleitos a fazer das deles e a esclarecerem-nos.
Posso tentar pôr-me na pele de quem nasceu negro e, nessa tentativa, reagir como seria cada vez que há uma injustiça só por se ser negro. Dificilmente manteria a calma. Dificilmente não gritaria, desalmadamente, para um dos “deles” que me fizesse sentir ou lembrar que eu era dos “outros”. Do que eu precisaria mesmo era de ter ao meu lado tantos quantos fosse possível. E é por isso que eu, branca, junto hoje a minha voz, aos gritos de todos quantos se sentem, porque são, maltratados, destratados, ignorados por serem negros. Floyd foi o último que conhecemos e acabou assassinado. Foi mais uma gota de água num copo que parece não parar de crescer e nunca parar de se encher. Sim, as tempestades justificam-se, e não são num copo de água. Vamos a elas, sem ódios. E sem ser para que fique tudo na mesma…
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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