E das armas brotaram cravos vermelhos de Esperança

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 19 Abril 2021
E das armas brotaram cravos vermelhos de Esperança
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Dentro de dias celebraremos aquela madrugada que esperávamos, aquela que nos trouxe o dia inteiro e limpo, quando emergimos do silêncio e passamos a viver em liberdade. São palavras decalcadas de um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos mais belos poemas sobre o 25 de Abril de 1974.

São 47 anos passados, sobre a madrugada de Abril em que jovens militares saíram dos quartéis numa luta contra a guerra colonial, contra um regime político que oprimia e que votava o povo a uma profunda miséria.

Hoje há muito quem tudo faça para branquear o regime fascista português, de Salazar e Marcelo Caetano, para fazer crer que dantes é que era bom, que havia respeitinho e ordem eramos pobrezinhos, mas honrados.

Mas a realidade do país em 1974 era bem dura, uma realidade que muitos dos mais velhos parecem ter esquecido e que os mais jovens, felizmente, nunca conheceram.

À falta de liberdade de expressão e da censura prévia dos jornais, dos filmes, dos livros, e ao terror de ser preso pela polícia política, juntava-se a guerra colonial. Raros foram os jovens que nos seus 20 anos conseguiam escapar a 3 anos e meio de guerra, 2 em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, de onde muitos não voltaram, outros voltaram sem pernas, sem braços, cegos. Vidas interrompidas, mães que perderam filhos e crianças que perderam pais, tudo para defender um ideal colonial, que a comunidade internacional já não aceitava.

Fome e miséria nos campos e nas cinturas industriais das grandes cidades para onde muitos fugiam à procura de trabalho, crianças de pé descalço, o analfabetismo atingia 1 em cada 4 portugueses e nas mulheres pior ainda, 1 em cada 3 não sabia ler nem escrever. Não havia serviços de saúde públicos. Não havia Segurança Social, era a previdência originada nas corporações e para a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras não havia direito a férias nem a subsídios. Em cada 1.000 crianças nascidas, 55 morriam no primeiro ano de vida.

Quem conheceu Lisboa, o Porto e as cidades satélite como Almada, Barreiro ou Amadora, lembra-se dos bairros de lata que cobriam as encostas e onde moravam mos operários e os mais pobres, fugidos das dificuldades do interior.

A vida dos pobres era um inferno! A vida de quem se opunha ao regime era um martírio!

Por isso, naquele dia 25, das armas que os jovens militares empunhavam brotaram cravos vermelhos de Esperança e o Povo tomou nas mãos o seu destino e fez-se Democracia.

A 25 de Abril de 75 fizeram-se as primeiras eleições livres no país e a 25 de Abril de 76 nasceu uma nova constituição da República, que finalmente, consagrou a igualdade entre homens e mulheres e o direito a escolher a profissão, consagrou a liberdade de opinião e expressão e consagrou tantos direitos, que hoje damos por adquiridos, esquecendo o passado.

A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação não são o refrão que Sérgio Godinho canta, são direitos que Abril reconheceu e que fomos concretizando.

Foi a Escola Pública, que permitiu erradicar o analfabetismo. Permitiu que dos menos de 50.000 estudantes do ensino superior nos anos 70 passássemos agora aos quase 400.000 estudantes, de que as raparigas são a maioria. Falta muito ainda, faltam creches, falta a gratuitidade no ensino superior, mas esses são hoje o nosso objectivo.

O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista da Democracia, tão atacado hoje pelos interesses particulares, tem sido a nossa defesa e salvaguarda nesta pandemia. Cabe-nos a nós cidadãos e cidadãs defendê-lo, lutar para que tenha mais meios.

É tudo perfeito? Não. muito há ainda por cumprir da promessa de Abril, mas que isso não sirva para que os arautos da extrema-direita que por aí andam ponham em causa tudo aquilo por que, enquanto povo, temos lutado: Um país livre, solidário, justo, onde cada um e cada uma possa ser feliz e viver em Democracia.

Nestes tempos tão difíceis, vivam o 25 de Abril!

Até para a semana.

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