…E o mês sempre a sobrar!

Segunda-feira, 11 Abril 2022
…E o mês sempre a sobrar!

 

Nos últimos dias muito se tem falado de inflação.

Neste momento a taxa de inflação em Portugal situa-se nos 5%, mais baixa que no resto da Europa, mas tudo indica que continue a subir e quem vive do salário ou da pensão está cada vez com mais dificuldade em chegar ao fim do mês e fazer face às despesas.

A semana passada durante o debate do Programa do Governo, Mariana Mortágua fez ao Ministro da Economia uma pergunta que a mim me apetece fazer de cada vez que vou às compras:

O Sr. Ministro já foi ao supermercado?”

Não sei se o ministro vai ou não ao supermercado, mas quem vai sabe que desde meados do ano passado os preços dos bens alimentares não têm parado de subir.

Segundo o INE, nos últimos dois anos, antes da guerra da Ucrânia, portanto, os preços das frutas aumentaram 9,9% e o dos óleos 12,5%. É certo que alguns produtos aumentaram agora por causa da guerra, os óleos tiveram em Fevereiro um aumento de 25%, mas muitos dos outros aumentos nos últimos tempos não têm justificação na guerra nem no aumento das matérias-primas ou mesmo dos combustíveis.

Se olharmos então para os preços dos combustíveis e da electricidade as subidas são incompreensíveis e os preços não sobem por causa dos impostos, mesmo quando o petróleo baixa no mercado internacional essa baixa não se reflecte na baixa de preços do gasóleo e da gasolina.

Os serviços bancários também aumentaram agora mais de 25% e os seguros já falam também em aumentar os prémios. Com que fundamentos justificam estes aumentos de serviços?

Há claramente o aproveitamento da crise por parte das grandes empresas que aumentam as suas margens de lucro. Este ano a Galp distribui 500 milhões de euros aos seus accionistas e a EDP mais 750 milhões face a 2021. O Pingo Doce e o Continente tiveram neste período lucros record e só estas 4 empresas distribuem este ano mais de 2 mil milhões de euros em dividendos.

Com 5% de inflação e a subir e 0,9% de aumento de salários, outra pergunta se tem de pôr agora: A quem é que o Governo vai passar a factura da inflação? Quem vai pagar?

No Parlamento António Costa afirmou que não haveria aumentos de salários porque o aumento da inflação é conjuntural, isto apesar de a taxa de inflação na nossa vizinha Espanha estar já a roçar os 10% e na União Europeia continuar a subir e ter disparado para 7,5% em Março.

Em contrapartida, apresentou medidas de mitigação do aumento dos preços. Apresentou apoios ao cabaz de compras para os mais pobres, uma baixa do ISP até que a Comissão Europeia dê o acordo à baixa do IVA para 13% e a limitação de preços da electricidade produzida com gás, mas neste caso ainda assim as barragens receberão pelo menos quatro vezes mais do que recebiam em 2020. Medidas insuficientes para travar a perda do poder de compra.

O Ministro da Economia anunciou ponderar a criação de uma taxa para estes lucros excepcionais, chamados lucros “caídos do céu”, mas a seguir veio dizer que vai discutir essa taxa com os empresários e António Costa aos costumes disse nada. Dá para antecipar que dificilmente será criada apesar de até a OCDE a recomendar.

Com a actual taxa de inflação os trabalhadores continuarão a ver o seu poder de compra baixar cada vez mais e a situação agravar-se-á com o aumento das taxas de juro dos empréstimos à habitação.

A inflação não se estancará tão cedo e ou Governo adopta medidas que salvaguardem salários e pensões, e actualiza os aumentos, ao mesmo tempo que actua também sobre a formação dos preços, limitando as margens de lucro, ou para os trabalhadores cada vez faltará mais salário e sobrará mais mês.

Até para a semana!

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