É para rir ou chorar?

Nota à la Minuta
Terça-feira, 27 Outubro 2020
É para rir ou chorar?
  • Alberto Magalhães

 

 

Houve, muitos anos atrás, uma altura da minha vida, em que, não sei se por sensibilidade doentia ou simplesmente demasiado apurada, dei comigo a repetir, várias vezes ao dia, a mesma frase, assim tornada banal: “este país é uma anedota”. Com o tempo passou-me. Ter-me-ei acomodado? Talvez. A idade tornou-me mais tolerante para com os meus concidadãos? É possível. Mas ontem, diante do televisor, dei comigo a resmungar de novo a frase batida: “este país é uma anedota”.

Com um atraso de meia-hora, insignificante em Portugal, começava a conferência de imprensa da ministra da Saúde. Esperava-se que, seguindo os conselhos do Conselho Nacional de Saúde, a ministra se ocupasse da gestão política da pandemia, deixando as tecnicalidades para a DGS, Graça Freitas.

Com a costumeira aceleração discursiva que, constantemente, parece deixar para trás o pensamento, Marta Temido desatou a debitar números em catadupa, sobre camas, internamentos e o diabo a sete, enquanto nos pedia que víssemos os quadros, entretanto projectados noutro canto da sala, fora do nosso campo de visão. Durante o que me pareceu uma eternidade, nem RTP3, nem SICN, nem TVI24, nos mostraram os quadros belamente projectados pela ministra, de controlo remoto na mão, enquanto falava para os jornalistas como se falasse para todo o país. Televisões e ministra deviam ter vergonha por se mostrarem tão lerdos.

Mas eis que, por um acaso, tomo conhecimento de que, em Setembro, o nome de David Hume, um gigante da filosofia ocidental, falecido em 1776, foi retirado de um edifício da Universidade de Edimburgo, sua terra natal, por ser, alegadamente, racista. O autor de obras como “Investigação sobre o entendimento humano” e “História Natural da Religião”, várias vezes enfrentou a censura e viu recusada uma cátedra naquela Universidade, por ter fama de ateu. Estudantes e professores de Edimburgo deviam ter vergonha por se mostrarem tão intolerantes e morcões. E o Padre António Vieira ainda cá tem a estátua.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com