É tempo de Natal

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 24 Dezembro 2018
É tempo de Natal
  • Alberto Magalhães

 

 

De ontem sobressai o tsunami na Indonésia, devastador. Parece que o Estado falhou, porque não adivinhou o que lá vinha. O Natal nem sempre rima com alegria. Por isso aqui fica do, entre outras coisas, actor e poeta António Manuel Couto Viana,

É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,

Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.

Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro

E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia

Do final das manhãs,

Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,

E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.

O chão, mais húmido, incomoda.

E há apelos insistentes

Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,

Com vistosos papéis,

Florescem de acetinados laços,

Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.

Muito cansaço. Pouca animação.

A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!

E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.

E é em mim que procuro, ou é lá fora,

A estrela que não luz, o pastor que não passa,

O anjo que não vem anunciar a hora?

In “Café de Subúrbio”

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