Ele aí está, de novo

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 21 Dezembro 2017
Ele aí está, de novo
  • Eduardo Luciano

 

 

Ele aí está, de novo. O Natal. Com o seu cortejo de rituais tradicionais e importados, o seu desfile de impulsos consumistas, espirituais, caritativos, de penas colectivas ou individuais.

Afinal que festejamos nós, que nos leva a procurar o conforto da auto satisfação de sermos bonzinhos durante uns dias, de procurarmos os que esquecemos, de esquecer os que procuramos durante todo o ano?

Que celebramos nós, os que não atribuem qualquer significado religioso à data e que ainda assim nos comportamos de uma forma diferente nesta época de sininhos a tocar e de velhos de barbas, vestidos com as cores de um refrigerante?

Gosto de acreditar que celebramos uma espécie de necessidade de voltarmos à nossa humanidade mais pura, aquela que nos foi roubada à saída da infância e devolvida num qualquer momento da vida adulta, num qualquer Dezembro de nostalgia.

Este ano ando menos observador e talvez por isso não me sinta tocado pela habitual amargura natalícia.

Quero lá saber se os sentimentos de quem dá um abraço são sinceros ou fazem parte de um qualquer processo de regeneração de quem o faz. O importante é mesmo o abraço. Que se lixem as motivações.

Este ano decidi atravessar a época festiva como quem deambula pela cidade, vendo sem olhar ou olhando sem ver.

Veio-me à memória um disco gravado na década de 70, com poemas de Ary dos Santos e interpretado pelo Carlos Mendes, o Tordo e o Paulo de Carvalho.

Era um disco infantil que o génio de Ary transformou numa ilustração do seu entendimento do que é o Natal, do sofrimento de quem o faz, do prazer de quem dele usufrui. Operários de Natal, conta a história dos que o fazem e vemos desfilar personagens e profissões, algumas delas caídas em desuso.

O lenhador, a costureira, o pasteleiro, o carteiro, os pais… e todos eles caracterizados como operários e amigos.

É uma lição sobre os construtores dos nossos sonhos, quantas vezes impedidos de sonhar.

Quarenta anos após a edição dos Operários de Natal, continua a ser a mais bela explicação sobre o que celebram os que não atribuem nenhum sentido religioso à data.

Celebramos a vida. E que seria da vida sem os amigos.

Até para a semana

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