Eleições e constrangimentos

Sábado, 27 Agosto 2022
Eleições e constrangimentos

Não há dúvida de que Portugal é um país pequeno e isso reflete-se até nas modas do linguarejar. Por causa das desgraças que vão acontecendo, por exemplo nas urgências hospitalares ou nas matas ardidas, duas palavras têm adquirido um peso que não me lembro de alguma vez terem tido. São elas ‘contingência’ e, claro, ‘constrangimento’. Não há, por estes dias, problemas, falhas, erros ou faltas. São contingências e constrangimentos que insistem em afectar a vida do país, sem que se percebam as suas origens e os seus responsáveis.

Com o espectáculo dos incêndios florestais a definhar, agora que já todos temos uma ideia do que sentem os ‘populares’ quando lhes ardem os haveres, mercê de reportagens arrepiantes e esclarecedoras, a atenção mediática tem-se virado para as eleições angolanas, que correm o risco de, elas próprias, gerarem faísca.

Depois de alimentar as esperanças de muitos numa Angola mais democrática e menos corrupta, o presidente João Lourenço, tem vindo a desiludir. O MPLA e o Estado continuam a confundir-se, a vislumbrada primavera democrática está longe de se concretizar e as condições de vida das populações têm vindo a agravar-se.

Dois factos aceites por todos: o MPLA vem perdendo muitos votos de eleição para eleição e a UNITA teve uma vitória inequívoca na região de Luanda. Mas quanto aos resultados gerais, o desacordo é total. Adalberto Costa Júnior, presidente da UNITA, não reconhece a maioria absoluta do MPLA e insiste na formação de uma comissão, com participação internacional, para comparar os números referidos pela CNE com os recolhidos pelos partidos políticos. A probabilidade de uma conferência transparente dos votos parece-me ser quase nula. A dúvida persistirá dadas as contingências e constrangimentos que afectam a democracia angolana.

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