Em democracia não há lugar para Salazares

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 07 Janeiro 2019
Em democracia não há lugar para Salazares
  • Maria Helena Figueiredo

 

Os primeiros dias deste novo ano não estão a fazer justiça aos votos de Bom Ano que todos nós formulamos ao bater das 12 badaladas. Pelo contrário, apesar de ter passado apenas meia dúzia de dias, foram já muitos e preocupantes os sinais de que este não será um ano tranquilo.

Os ataques à democracia, directos e encapotados, não deixam dúvidas quanto ao que por aí vem, ao surgimento de governos e movimentos protofascistas em vários países e às tentativas, também por cá, que a extrema direita e neo-nazis estão a lançar.

É uma guerra surda mas muito orquestrada, a que estão a iniciar. E nesta guerra não há lugar a neutralidades e nem a tibiezas, não pode haver hesitações no que é a defesa firme dos princípios democráticos. Por isso as acções de Marcelo Rebelo de Sousa, do Governo, dos partidos, dos jornalistas e das televisões e, finalmente, de cada um de nós contam e não vale a pena encontrar desculpas.

Começamos no dia 1 com a posse do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Um presidente eleito, pelo recurso ao discurso de ódio e a notícias falsas nas redes sociais, apoiado pelas igrejas evangélicas mais obscurantistas, um homem racista, xenófobo, homofóbico, que defende a tortura e que ameaçou – e está a cumprir a ameaça – acabar com os adversários de esquerda. O seu discurso e os primeiros actos que praticou vieram confirmar as piores expectativas.

Marcelo Rebelo de Sousa esteve presente na posse. Não devia ter estado e muito menos devia ter chamado aos 20 minutos de reunião entre ambos um “encontro de irmãos”. Foi uma afirmação inaceitável e que só nos envergonha enquanto país, sobretudo porque dá sinais muito negativos, ao fazer crer que ser racista ou defender a ditadura não é grave, que mesmo os fascistas são bons rapazes.

Essa é a ideia que por cá alguma Comunicação Social se tem esforçado por passar: defender a ditadura ou a eliminação de direitos dos cidadãos é o mesmo que defender a democracia.

E não é!

Há 15 dias foi a excessiva cobertura noticiosa a um pífio movimento de “coletes amarelos” aproveitada para entrevistar tudo o que é dirigente de extrema direita, e foi agora a 3 de Janeiro, a TVI a dar voz à defesa do fascismo, apresentando 2 entrevistas no mesmo dia com um líder da extrema direita

Mário Machado um neo-nazi, criminoso em liberdade condicional, condenado várias vezes por crimes de grande violência, que há pouco mais de um ano foi detido mal chegou à Suécia, deportado e proibido de circular naquele país.

Da lista de crimes por que foi condenado somam-se a discriminação racial, coacção, tentativa de extorsão e o envolvimento no assassinato de um jovem, Alcindo Monteiro, por não ser branco.

Apesar disso, pela mão de Goucha num programa de entretenimento cuja audiência é principalmente gente idosa, foi apresentado como se tratasse de um comum e bem comportado cidadão que ali estava apenas por ter posições polémicas. O mote foi dado pela pergunta “Precisamos de um novo Salazar?” e claro deu oportunidade a Machado de explanar as suas ideias fascistas e defender a necessidade de um ditador.

Como se não fosse suficiente, a TVI 24 no programa SOS 24, tornou a entrevistar e a dar mais tempo de antena ao mesmo Mário Machado.

Não se diga que tudo isto foi mero acaso, que foi uma forma de aumentar audiências na guerra entre canais ou de que se tratou do exercício da liberdade de expressão.

Tratou-se, isso sim de uma acção insidiosa para promover e dar voz à extrema direita, sem contraditório, levando os expectadores ao engano sobre quem ali lhes era apresentado e ao que vinha, criando-lhes a convicção de que tudo aquilo era normal.

É esta sucessiva “normalização” das ideias da extrema direita que é perigosamente manipuladora e não pode ser tolerada, sob pena de o próximo episódio que nos transmitem na TV ser a morte da democracia.

Até para a semana!