Então, o que se passa!?

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 30 Março 2023
Então, o que se passa!?
  • Nuno do Ó

 

Nos últimos dias e semanas e até mais, temos assistido a grandes manifestações em vários países do mundo ocidental Refiro-me aos mais recentes acontecimentos, por exemplo, em França ou em Israel, mas não só.
No ocidente, como se sabe, é tudo diferente e tudo muito mais legal e legítimo, porque, claro, somos nós, mas a questão que coloco é a de saber o que leva milhares de pessoas a questionar desta forma, muitas vezes com elevada violência, a sociedade onde se inserem e que, segundo julgo saber, pelo que se diz correntemente, não tem paralelo no mundo e como dizem, não há melhor.

Os títulos são muitos e variados:

Em França aumenta o número de jovens que participam nos protestos violentos nas ruas contra a reforma das pensões imposta por Macron. / Israel a ferro e fogo: Milhares de pessoas saíram às ruas contra a reforma do sistema judicial proposta pelo executivo. Netanyahu suspende reforma judicial para evitar guerra civil. / Protesto em Viena de Áustria contra conferência europeia sobre o gás termina com intervenção policial. Centenas de manifestantes bloquearam o centro da cidade de Viena. / Confrontos entre a polícia e os manifestantes, em frente ao Parlamento Grego, que exigem a verdade sobre acidente ferroviário que matou 57 pessoas. Estudantes realizaram uma marcha a exigir a verdade sobre o acidente
ferroviário, que terminou em frente à sede da companhia ferroviária privada Hellenic Train, acusada de negligência. / Milhares protestam em Madrid em defesa da saúde pública. Os manifestantes acusam o partido popular de desmantelar os cuidados primários de saúde e exigem mais meios e recursos para os
profissionais de saúde. / etc..
Estes exemplos de absoluto desencanto das populações europeias provam o falhanço, em medida bastante razoável do projeto de sociedade liberal que temos patrocinado. O domínio das grandes
empresas e do capital e o total desprezo pelas pessoas que trabalham e que lhes entregam a sua cota de rendimento, escravizadas pelo mesmo sistema, a partir de um esquema perfeitamente estudado e meticulosamente ensaiado, ao longo do desenvolvimento desta sociedade baseada na exploração do homem pelo homem, ou melhor, do homem pelos poucos outros homens que detêm a riqueza do mundo.
Mas então o que é que se passa no mundo ocidental?
Na verdade passa-se exatamente o que vemos à frente dos nossos olhos mas que nos recusamos a ver, entretidos com russos e chineses, com filmes e boa publicidade. É que aqui mesmo, onde estamos, neste exemplo de democracia no mundo, os de sempre continuam a tentar derrubar a ideia de uma sociedade baseada na justiça, na igualdade, na fraternidade entre os povos. Alimentam-nos a ideia de correr ao rearmamento geral, a pagar tudo isso, ainda que mantendo uma boa parte da população europeia no limiar da pobreza, sem acesso à educação ou à saúde plena, condenados a trabalhar de sol a sol, para os que ainda têm trabalho, enquanto os tais, verdadeiramente, enriquecem. Os mesmos que, depois disto tudo, iremos eleger.
Sim, porque mesmo percebendo que, como sempre, o poder de direita e a sua extrema-direita se encavalitam neste descontentamento para incendiar, pilhar e voltar mais uma vez a propor a ditadura e a guerra, para pôr isto tudo na ordem, para voltar a violentar os outros, pelo género, pela origem ou pelo que for, corrompendo a legitimidade e a urgência dos manifestantes, a justeza das suas reivindicações, iremos, cordeiramente, de cabeça baixa, eleger os opressores.
Não adianta muito, particularmente num regime democrático, enfrentar as cargas policiais, incendiando a verdade e a legitimidade do que afirmamos, se no momento de escolher e de poder determinar, ou melhor, do poder de determinar o nosso futuro, no momento do voto, ou vamos à praia, ou afirmamos que não temos nada a ver com a política, ou nem sabemos nem queremos saber e deixamos que os mesmos Macron’s e Netanyahu’s, legítimos eleitos, se elejam, legitimamente, uma vez mais.
Depois não vale muito a pena chorar e ir para a rua incendiar baldes do lixo. Se o tivermos que o fazer, é porque mais uma vez fizemos tudo mal e deixámos, mesmo sabendo, que eles nos voltassem a tramar…precisamos é de não esquecer e de nunca esquecer… eles estão aí, todos os dias, nas televisões… agora esqueçam-se e depois admirem-se… é que depois, o protesto… não chega!

Até para a semana!

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