Entre rasteiras e rasteiros não muda só uma letra

Crónica de Opinião
Terça-feira, 04 Fevereiro 2020
Entre rasteiras e rasteiros não muda só uma letra
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Dias confusos virão aí para quem alguma vez achou que, quando se chegava a lugares de poder, era porque se tinha um determinado nível. Claro que não estou a pensar naquela atitude típica de quem se esvai em sangue azul, ou azulado, ou seja mesmo só um snob. O snob é o grau obtido “sabe-se lá porquê”, tradução muito livre e cómica que ouvi sobre o título atribuído “honoris causa”. E que bem aplicado é a certos casos! Os snobs são, para mim, os últimos e mais fundamentalistas marxistas, os que julgam que a explicação da máquina do Mundo está nas classes. Mas adiante.

Toda a gente que já teve alguma actividade na Política, mais do que só o importante e político gesto imprescindível de votar para participar, não terá dúvidas de que, nesse mundo, para além da inteligência é necessária muita resistência. Nos dias que correm, estou em crer que para alguns dos que estão atentos ao que se passa na Política, e que é só com quem consigo ter uma conversa em que sinta que estamos mesmo a trocar impressões e opiniões, a resistência será a de não cair na lama em que novos líderes partidários, mesmo de velhos partidos, se vão movendo.

As boas estratégias e tácticas político-partidárias sempre viveram da pequena e cirúrgica rasteira que se pregava a adversários ou inimigos. Nem que fosse não fazer nada, com pose e elevação, e deixá-los espetarem-se sozinhos depois de tropeçarem nos próprios pés. Mas isso parece chão que já deu uvas. O que está a dar é mesmo chegar ao nível baixo de cultura política dos cidadãos e deixá-los lá. Deixá-los, não. Convencê-los a ficarem lá, contentes com o seu descontentamento, através de argumentos rasteiros, em discursos rápidos e fluidíssimos, que soam tão clarividentes como “a lógica da batata” e que os fazem sentirem-se ali bem, enquanto eles caminham em ombros no seu percurso de grandes líderes. Mas rasteirinhos, rasteirinhos.

Por outro lado, aos que detêm o poder no contra-poder também já ouvi discursos a pedirem já só uma palavrinha … de afecto, talvez. O que me parece uma forma de contestação assim a dar para o chamado romance cor-de-rosa e, lá está, com um discurso também muito rasteirinho. Como nunca, parece-me cada vez mais útil, para além das entrelinhas, começar-se por ler mesmo as linhas com que nos vão cosendo os destinos do País.

Até para a semana.

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