Esta é a madrugada que eu esperava…

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 20 Abril 2020
Esta é a madrugada que eu esperava…
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Esta semana levantaram-se vozes contra a comemoração solene do 25 de Abril na Assembleia da República.

A gente sabe que apesar de estarem a passar 46 anos sobre aquela madrugada em que se abriram as portas da democracia, hoje como há 46 anos há quem não queira que se celebre a liberdade ou melhor, há quem ainda não consiga conviver com a liberdade.

Hoje, 46 anos passados, há quem não tenha pejo em se aproveitar da natural ansiedade e até medo que o COVID 19 infunde nas pessoas, para construir um discurso que, sob a capa da protecção da saúde e igualdade de obrigações entre o Parlamento e os cidadãos, tem servido para acicatar revolta e virar o povo contra a celebração da liberdade.

Sim porque é isso que no fundo pretendem aqueles que iniciaram o ataque à Assembleia da República quando esta, democraticamente, decidiu comemorar o 25 de Abril com uma sessão solene em que estarão presentes 130 pessoas, das quais apenas 77 dos 230 deputados.

Alguém acredita verdadeiramente que são as questões de saúde pública que mobilizaram o CDS ou o deputado Ventura, para quem tudo é uma vergonha, contra a sessão solene de celebração do 25 de Abril?

Se assim fosse porque não protestaram quando 36 deputados do PSD estavam no parlamento quando tinham acordado que apenas metade lá deveria estar? Esse número é superior ao número dos que estarão nessa bancada na sessão solene do 25 de Abril.

Não protestaram, nem sequer pestanejaram, porque a motivação não é o COVID 19, é mesmo uma raiva incontida ao 25 de Abril e à liberdade que com ele veio, uma raiva que não disfarçam e que manifestam sempre que podem.

Mas a verdade é que nem a Democracia está suspensa, nem a Assembleia da República encerrou as portas, nem os deputados estão confinados.

Como acontece com centenas de milhares de trabalhadores, os deputados continuam a exercer funções, fazem-no nos seus gabinetes e também no Plenário da Assembleia da República; o Parlamento tem estado, como deve, a funcionar, cumprindo as normas sanitárias e de afastamento físico.

A Assembleia da República está aberta e no dia 25 de Abril não vai fechar. Não vão haver paradas ou desfiles, nem as bancadas e as galerias vão estar cheias com centenas de pessoas, como acontece todos os anos; A Assembleia da República vai celebrar o 25 de Abril, de forma contida, haverá alguns convidados, seguindo todas as regras de afastamento físico e de protecção que são recomendadas, no caso concreto, pelo Ministério da Saúde.

Celebrar Abril é sempre importante, ao celebrar Abril estamos a celebrar o momento fundador da nossa Democracia e a homenagear os jovens capitães que generosamente nos permitiram construir um país livre.

Mas este ano celebrar Abril reveste ainda um sentido especial, não apenas como celebração de tudo o que foi alcançado, mas porque foi Abril que nos trouxe um Serviço Nacional de Saúde, que se quis público, gratuito e universal, que integra profissionais competentes e dedicados, e que, apesar dos ataques de que tem sido alvo, está a demonstrar que consegue ultrapassar-se e prestar um serviço inestimável ao povo face à pandemia da Covid 19.

Celebremos nós também Abril nas palavras de Sophia de Mello Breyner

“esta é a madrugada que eu esperava,

o dia inicial inteiro e limpo,

onde emergimos da noite e do silêncio

e livres habitamos a substância do tempo”.

Fiquem bem, fiquem livres!

Até para a semana

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