Estive na Palestina!

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 03 Novembro 2022
Estive na Palestina!
  • Sara Fernandes

No âmbito de um Programa Erasmus do qual a Universidade de Évora faz parte, estive este Verão na Palestina, em visita de trabalho à Universidade de Birzeit na Cisjordânia, muito perto de Ramallah.

A Cisjordânia é uma das duas partes que compõem o Estado Palestiniano (a outra é a faixa de Gaza). Segundo a Wikipédia (para não pôr parcialidade nisto), está sob ocupação israelita desde 1967, está dividida em 167 enclaves palestinianos sob governo civil parcial da Autoridade Nacional Palestiniana e 230 colonatos israelitas.

A ocupação está presente em todo o lado. Apartheid, é o que nos vem à cabeça, a nós e aos colegas da Universidade de Joanesburgo/África do Sul, também lá presentes. Sentimo-lo nos reservatórios de água no cimo de cada edifício, nos checkpoints, nos museus e exposições, nos brindes para turistas, na conversa dos motoristas de táxi, nos olhos de cada palestiniano.

Ouvimos relatos de prisões de estudantes, em pleno Campus Universitário, cortes da água por vários dias consecutivos sempre que os estudantes organizam manifestações de protesto (Israel manda na água!). Vistos recusados a estudantes e professores que querem estudar em Birzeit. Explicam-nos que é Israel quem decide quantos podem admitir por ano… e quem admitem. Aeroporto? Não há! Israel não deixa. Para entrarmos na Palestina temos de passar por Israel e deixá-los decidir se podemos ou não. Colegas do nosso grupo, longe de serem activistas políticos, foram escrutinados ao mais ínfimo pormenor, obrigados a mostrar o telemóvel e o seu conteúdo, interrogados, intimidados, despidos e humilhados no aeroporto.

Havendo enclaves palestinianos e colonatos israelitas, é comum passarem-se “fronteiras” ou CheckPoints, sempre com g5’s (foi assim que chamei aos grupos de jovens militares israelitas, sempre 5, sempre bonitos, sempre grandes, 3 rapazes e duas raparigas, sempre armados, sempre arrogantes e sempre ameaçadores). Para distinguir um enclave palestiniano de um colonato israelita basta olhar e ver: é claro quem ocupa quem. Só visto!

Tivemos a oportunidade de passear por várias cidades (e vários checkpoints) da Cisjordânia:

Em Hebron a nossa guia usava o lenço na cabeça e distinguia-se do nosso grupo por isso. Tremia de medo à aproximação de cada g5. Na rua vimos a prova de força exercida sobre um comerciante, a sua lojinha e quem quer que olhasse (até colegas do nosso grupo foram ameaçadas só por testemunharem). No Túmulo dos Patriarcas vimos, do lado muçulmano, o túmulo de Abraão. Nós passámos, a nossa guia foi enxovalhada e teve de se sujeitar a ser revistada por inteiro e entrar por uma porta diferente da nossa.

Fomos a Jericho e vimos o mar morto. Nós sim, o nosso motorista teve de ficar à porta, não era para palestinianos. Nem pôde ver aquele imenso lago, que é um mar, e em que a parte interessante é boiarmos, mesmo sem querermos, de tão saturada de sal é a água. As margens estão cercadas de enormes muros e taipais que não deixam, ao povo que sempre ali viveu, vislumbrar sequer um bocadinho daquele mar.

Em Belém vimos a igreja da Natividade e a mesquita de Omar. A nossa guia era destemida, vivia no campo de refugiados onde nasceu. O pai tinha sido libertado da cadeia na semana anterior, o irmão era sistematicamente levado e libertado, depois de humilhado e ameaçado pelas tropas israelitas, sem nunca formularem a acusação.

Conhecemos o Presidente da maior Associação que actua no campo. Nasceu durante a fuga de Jerusalém, num outro campo de refugiados, ainda em tendas, quando a família foi expulsa das suas terras pelos israelitas recém-chegados. Naquele campo de refugiados não há abandono escolar, a taxa de escolaridade é das mais altas do mundo e os heróis são os escritores, os artistas e os cientistas. A figura daquele homem é de um alentejano. Sério, duro e com uma bondade imensa na voz. Senti-me em casa.

Tudo isto (e muito mais) me vem à memória porque saiu recentemente nas notícias (sem grande destaque, está claro) que peritos do mais alto órgão de direitos humanos da ONU consideraram que a ocupação israelita de territórios que os palestinianos procuram para o seu futuro estado, é “ilegal à luz do direito internacional”. A declaração dos peritos consta de um relatório para a Assembleia Geral das Nações Unidas, que deverá ser discutido na próxima semana. Como os ventos vão de feição, que quando a diplomacia quer, a diplomacia consegue, como se viu no acordo recém-assinado entre o Líbano e Israel sobre fronteiras nunca reconhecidas por Israel (ou pelos EUA, que é quem decide), pode ser que finalmente se reconheça o direito do povo palestiniano à sua terra e que os povos que lá vivem desde sempre, possam viver em Paz.

Até para a semana!

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