Estudar não é para todos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 21 Dezembro 2023
Estudar não é para todos
  • Nuno do Ó

Estudar não é para todos. Foi este o título de uma reportagem da Linha da Frente da RTP, que constata o avanço do liberalismo e das suas consequências, que exemplarmente serviu para relatar e constatar aquilo que todos já vamos sabendo, porque o vamos sentindo, ou seja, que estamos todos cada vez mais apertados, em face dos lucros imorais de outros, dos bancos, em face do despudor com que carregam os orçamentos das famílias, cada vez mais arriscadas a perder até as suas casas, ou, como no caso desta reportagem dedicada aos estudantes universitários, cada vez mais incapazes, eles e as suas famílias, de suportar os custos financeiros dos estudos universitários.
Uma triste realidade da nossa democracia, que tem causas, nomes e responsáveis. E não basta agora gritar que tem que se resolver o problema, depois de sucessivos governos terem feito tudo para o criar. Sublinhe-se que estamos a falar de estudantes que garantiram o seu acesso à universidade, pelas horas que gastaram a estudar, depois de se matricularem no curso que escolheram e que simplesmente, não aguentam, perante o valor das propinas, dos quartos e da estadia, que os obriga, também simplesmente, sem apelo nem agravo, a desistir.
E a quem é que ficamos a dever isto tudo? Aos sucessivos governos, claro está e às sucessivas medidas de liberalização e de desresponsabilização do Estado para com uma grande parte da população, a mais carenciada e até mesmo, uma certa parte da classe média, que, da média, vai ficando cada vez mais longe.
E não é de agora este estado de coisas. Em 1991, ouvia-se o protesto de alguns alunos universitários, infelizmente poucos, porque a maioria acabou atrás do governo de Cavaco Silva, que se propôs mudar o valor das propinas na universidade, gratuitas à data, com a desculpa que isso iria melhorar a qualidade do ensino superior. Todos já sabíamos que a verdadeira intenção era abrir a porta às universidades privadas, equilibrando a grande diferença de custos entre o ensino público e privado, que levava uma grande maioria dos alunos para o ensino público. Viu-se o que se passou desde logo, com a proliferação das universidades privadas, algumas delas famosamente manchadas, como a Moderna de Paulo Portas, mesmo depois do agachamento do Estado, em favor dos amigos de classe, mais uma vez defendendo a tese de que só estuda quem tem posse, não que tem cérebro, à semelhança do que se fazia no antigamente, que alguns insistem em revisitar e que até já o prometem, sem vergonha alguma na cara.
Em 1992 foi elaborada chamada Lei das Propinas, que previa o aumento dos custos com o ensino superior público. Mário Soares fingiu que não concordava, por forma a apaziguar a rua e até enviou a lei ao Tribunal Constitucional, considerando talvez, que a nossa constituição prevê a progressiva gratuitidade de todos os graus de ensino, o que acabou, simplesmente, ignorado.
E foi o que se viu. Os estudantes continuaram a gritar, cada vez menos, com os jovens xuxas e jotas a adotar a teoria de cavacos e soares e cá estamos todos, com as universidades privadas em alta e a pagar as tais propinas, progressivamente mais caras em vez de gratuitas.
Todos não. Os daquela aldeia inexpugnável, lá ficariam, na aldeia, como se previa. Os mais abastados, mesmo desprovidos de saberes, lá vão a caminho de engenheiros, porque o papá pode pagar. E assim, a direita ficou como quer, com filhos doutores e com os pobrezinhos à disposição para a distribuição dos cabazes de Natal.
Nada de novo nesta direita e tudo de acordo com o que de facto sempre prometeram, para os que ainda sabem ler, nas entrelinhas. Não fosse o alastramento sem controlo do capitalismo neo-liberal, que é como quem diz, da lei da selva, a coisa até poderia aguentar-se para o gáudio dos futuros doutores, que enquanto lá podem andar, não olham para os que ficam para trás. Já quando ficam lá atrás, a conversa muda, tardiamente, assim me parece.
De repente juntam-se 280 euros por uma cama em beliche, num quarto para 6 pessoas, mais digno de uma prisão e os sonhos começam a desvanecer-se, com os privados a realizarem verdadeiros leilões, para ver quem dá mais. E assim se vê a preocupação de uma grande maioria destes privados. Chama-se lucro. Porque na verdade, está nos seus genes. A única garantia, como sempre, quando a coisa aperta, é a garantia do Estado, o tal que se demitiu lá atrás.
Não é que tenhamos nada contra a iniciativa privada, muito pelo contrário. O que não pode acontecer, para o bem de todos e particularmente dos privados que realmente trabalham, que são muitos, é o favorecimento de alguns, à custa de todos nós e do desmantelamento do setor público, que nos levará de volta ao santuário da direita, aos pobres e ricos de que tanto gostam, ao tal antigamente.
No antigamente onde não foi preciso saber ler para querer saber e para chegar à revolução. Também agora não deverá ser necessário. Desde que queiramos saber. Desde que nos importemos. Não apenas connosco, mas com os outros, com os que não conseguem. Desde que nos preocupemos em dar as mesmas oportunidades a todos, independentemente do sobrenome. Desde que saibamos ensinar… a pescar em vez de ser a entregar a lata no cabaz. Bom Natal.
Até para a semana.

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