Falta aqui o tinteiro

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 16 Dezembro 2021
Falta aqui o tinteiro
  • Alberto Magalhães

Em tempos que já lá vão, os contratos – e outros acordos – assinavam-se com aparos que se molhavam em tinteiros eventualmente de prata. A minha mãe, que vinha desse tempo, perante certas situações em que a sua confiança era posta à prova, tinha por costume murmurar: “é tudo gente honesta, mas falta aqui o tinteiro”, com o mesmo espírito de quem diz que não acredita em bruxas ‘pero que las hay, las hay’.

Há dois meses queixava-me eu, a propósito da fuga de Rendeiro, da candura dos magistrados que achavam normal confiar que um vigarista se portaria como um gentleman e se apresentaria no presídio de malinha na mão. Atrevi-me então a sugerir que se investigasse essa candura, mais o atraso a fazer transitar em julgado a sentença de prisão efectiva do riquinho. E deixo bem claro que não sou dado a teorias da conspiração e prezo imenso o princípio da presunção de inocência. Mas, falta aqui o tinteiro.

Anteontem, o DN deitou mais uma acha na fogueira das minhas inquietações. Então não é que o Departamento de Cooperação Judiciária e Relações Internacionais da PGR, cometeu um (alegado) “erro” no mandado enviado, às autoridades sul-africanas, para a detenção de Rendeiro, invocando, como razão para esta, apenas que o homem era procurado para responder em tribunal, sem fazer qualquer referência ao principal motivo para a extradição ser concedida: a condenação já transitada em julgado. Foram as autoridades sul-africanas que alertaram e ‘obrigaram’ as portuguesas a emitir segundo mandado, com o erro corrigido. Desculpem, isto é tudo gente séria até prova em contrário, mas que falta aqui o tinteiro, falta.

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