Festivais

Crónica de Opinião
Terça-feira, 27 Junho 2017
Festivais
  • Cláudia Sousa Pereira

Já entrámos na época dos festivais, esses herdeiros das feiras antigas, onde o negócio e o lazer andam lado a

lado. As feiras na Antiguidade e na Idade Média apareceram sempre relacionadas com festejos religiosos e dias santos, dando oportunidade a que se reunissem mercadores de terras distantes, trazendo os seus produtos autóctones para trocar por outros. E a etimologia da palavra “feira” (dia santo) demonstra também que a religião, qualquer que seja o credo, tem andado de mãos dadas com o comércio. E houve até alguns que esqueceram um certo episódio de vendilhões num templo…
Já as festas, ou os seus sucedâneos festivais, têm origem na palavra fest que deriva do inglês e do francês, por sua vez filhas da palavra latina festivus. Desde os seus princípios que um festival é uma ocasião especial para festejar ou celebrar, com uma feira à mistura, o que o torna também próximo da religião e do comércio. De facto, o que levamos de uns anos para outros em tudo parece ser ritualístico. Nada, pois, de gozar com quem vive de corpo e alma este tipo de repetição, ainda que única por época, até de forma algo disparatada para quem “aquilo” nada diz. E também, por isso, quando não há um festival, muitos dos seus “fervorosos practicantes” podem mostrar-se tristes ou até muito revoltados. E foi assim que aconteceu em Évora, com um festival que constituía festa que homenageava, reconhecidamente e muito bem, a Cidade-deusa da Cultura.
A BIME não aconteceu em 2015 e, parece, não vai voltar a acontecer em 2017. Digo “parece” porque já me fui acostumando a encontrar muitos incendiários disfarçados de bombeiros e, talvez, ainda haja por aí uma solução para o assunto. Depois de 26 anos em que, ano sim ano não, aconteceu, mesmo nos horríveis anos de 2011 e 2013 em que não havia dinheiro (mas pelos vistos havia vontade e capacidade de trabalho), e quando, diziam muitos desses seus devotos, a vereadora da cultura e o executivo camarário de então não mostravam nenhuma sensibilidade para o assunto e para com os que dele viviam… Desses, muitos se calam agora e os ouvintes/leitores imaginam bem porquê.

Os eborenses menos engajados em lutas político-partidárias vão certamente notar que “já há muito tempo que não há marionetas na rua!”, sobretudo se a oposição ao executivo municipal, também na rua, o fizer notar. Mas estarão tão ansiosos com a abertura este ano de um centro comercial com cinema que, às tantas, até acham que foi (finalmente!) um executivo autárquico que o construiu, numa evidente confusão entre as funções de instituições públicas e privadas. Nessa feira sempre montada que é um centro comercial encontrarão outras formas de lazer que, não menos importantes, são seguramente menos “cá da nossa terra”. Se calhar é isso mesmo que querem, que o resto do mundo venha até Évora. Ah! Mas espera! Era isso que acontecia na BIME! Por aqui passavam do melhor que se fazia em marionetas e fantoches e Évora até era também conhecida por isso…
Festivais? Sim, “festivou”! À feira, à festa, ao festival ou ao centro comercial. Seja para fazer o mesmo que fiz nos outros anos todos, ritualisticamente, seja para ver “mercadores de terras distantes” com quem quase nunca me cruzo. Eles vendem, eu compro, sempre que posso. Em nome de um lazer que, para além de todo outro tipo de interesse cultural e identitário, sempre vai encontrando no fundo dos bolsos “aquilo com que se compram os melões”. E já agora, por falar neles: não haverá por aí gente que não esteja a perceber os melões com que deviam ter ficado por terem embarcado em conversas de uns para ofender, extemporaneamente, outros? Se calhar, não. Estão muito melhor, agora. Até para a semana.

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