Floresta de pesadelo

Sábado, 16 Julho 2022
Floresta de pesadelo

 

 

“Em 2017, o país compreendeu que não basta investir na Proteção Civil, nos meios aéreos, nos equipamentos para bombeiros. Não basta investir na prevenção por parte dos cidadãos. Tudo isto é essencial, mas não basta”. Esta tirada, cheia de sabedoria e bom senso, pertence ao primeiro-ministro e foi dita na terça-feira, em Vila de Rei. Não é original. Todos os anos a ouvimos, dita e redita por especialistas de todos os matizes. Vê-se que António Costa percebeu que o problema é estrutural. Costa também percebeu que é preciso completar o cadastro das propriedades rurais, uma coisa que, segundo ele, “nem a ditadura teve coragem de fazer”.

Mas, logo a seguir, Costa espanta, ao apelar aos portugueses, para procederem à identificação e registo das suas propriedades, atirando assim para os populares a batatinha quente, sacudindo a água do capote governamental.

Ou seja, cinco anos depois de Pedrogão; cinco anos depois de prometer atacar as causas profundas, estruturais, dos incêndios florestais; cinco anos depois de prometer a indispensável reforma cadastral; sabendo que 30% das propriedades fazem parte de heranças indivisas, com herdeiros espalhados pelo mundo; sabendo que muitos proprietários nem sabem que o são ou onde o são, o primeiro-ministro passa finalmente à acção: atreve-se a exortar os portugueses a fazerem o favor de tratarem do cadastro.

Qual alteração do regime sucessório, para evitar o abandono das terras por desavenças entre familiares? Qual apoio às actividades agro-silvo-pastoris? Qual apoio aos proprietários e às autarquias que façam boa gestão florestal? Qual cadastro geral obrigatório, em prazo razoável? Qual política integrada de ocupação do território? Façam favor de registar as vossas propriedades e não assem sardinhas na floresta.

Se é verdade que a reforma da floresta portuguesa não se faz em meia-dúzia de anos, era bom não ser adiada para as Calendas.

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