Folhas em Branco

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 09 Dezembro 2022
Folhas em Branco
  • Glória Franco

Viva

Façamos um pequeno exercício de memória.

Recuemos 2 anos. Em Hong Kong apareceram, por essa altura, folhas brancas a ilustrarem protestos, como símbolo de censuras; estas, também, surgiram no Irão, na Rússia e, agora, com maior frequência em diferentes cidades chinesas.

Se recuarmos mais de 100 anos e nos transportarmos até à 1ª República, vamos encontrar jornais portugueses com espaços em branco. A censura não se limitava a cortar frases cortava todo o texto.

Símbolo de repressão, estas folhas brancas, só por si, são representativas de liberdades sonhadas e frequentemente adiadas.

O direito à informação, contrapõe-se ao tempo lento (que já não existe), quase não temos espaço para reflexões atempadas. Precisamos alimentar o que nos surpreende, as batalhas verbais dão agora espaço a silêncios que, por vezes, falam mais alto que algumas verbalizações barulhentas.

Não sendo as liberdades pessoais apenas produtos de culturas vividas, estes silêncios, desenhados em folhas brancas, assumem-se como castrações aos direitos fundamentais e às vivências em democracia.

O sistema chinês já não consegue censurar tudo. Se algum benefício as redes sociais nos trouxeram foi precisamente conseguir ludibriar os censores, divulgando, em direto, ou não, o desenrolar dos acontecimentos.

O barrar da divulgação de imagens e sons, ficou comprometido.

Ao tentar a instalação de novas muralhas, o poder chinês, tenta esconder a contestação crescente que começa a perder o medo de se fazer ouvir.

As palavras voaram das folhas desnudadas e aguçaram revoltas, as mensagens exacerbaram multidões.

Tentando transpor o pensamento político chinês para o mundo ocidental, deparo-me sempre com alguma dificuldade, em compreender o que se passa em torno dos movimentos sociais. Pois, por mais que tentemos pensar no lugar do outro, este por vezes torna-se um exercício difícil, e que, nem sempre, nos pode conferir um maior entendimento e compreensões mais consistentes.

As conflitualidades eternizam-se, as políticas tornam-se demasiado débeis, prejudicando liberdades que queremos ver mantidas, custe o que custar.

Os protestos não ficam restritos apenas às políticas em curso, estes estão, também, a ser direcionados para o presidente recém-reeleito e para o Partido Comunista Chinês.

Hoje, quarta-feira, dia em que estou a escrever esta crónica, o governo chinês deu alguns passos a trás, relativamente à política de Covid-zero. Talvez a medida mais emblemática esteja relacionada com a proibição da “obstrução de portas”, deliberação que esteve na origem da atual vaga de contestação.

E, assim, se começa a escrever a palavra Liberdade, em folhas brancas

Saudações LIVRE’s

Até para a semana

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