Fomos surpreendidos, na passada semana, com um amplo movimento de protesto de agricultores

Crónica de Opinião
Terça-feira, 06 Fevereiro 2024
Fomos surpreendidos, na passada semana, com um amplo movimento de protesto de agricultores
  • Capoulas Santos

Fomos surpreendidos, na passada semana, com um amplo movimento de protesto de agricultores como, provavelmente, não tínhamos presenciado antes, em Portugal.
Primeiro, porque surgiu na sequência de manifestações em França que, rapidamente alastraram, pelo menos, a uma dezena de Estados-membros da União Europeia.
Em segundo lugar, porque, com uma única exceção, Coimbra, onde, por detrás dos protestos, esteve uma confederação agrícola, todos os outros pareceram surgir de forma espontânea, quiçá, à revelia das principais organizações do setor.
A conjugação destes factos demonstra que existem, certamente, causas comuns, para a ocorrência simultânea em vários países europeus, mas, também, causas especificas em cada um deles, como foi possível constatar através dos relatos da comunicação social.
Para quem acompanha de perto a realidade agrícola, nacional e europeia, estes acontecimentos não foram propriamente uma surpresa. Tê-lo-á sido, apenas, a grande dimensão dos protestos.
De facto, não obstante o setor ser generosamente apoiado pela União Europeia, e pelos governos nacionais, tal não constitui uma benesse ilegítima, antes pelo contrário, é uma compensação justa, que tem permitido que os preços dos bens alimentares tenham permanecido estáveis nas últimas décadas e, também, para compensar os serviços ambientais que os agricultores prestam a toda a comunidade, que deles beneficia.
Porém, nos anos mais recentes, tem vindo a ser criado um “caldo de cultura” que mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, iria provocar reações. Desde a proliferação de campanhas demagógicas mediáticas contra a agricultura que, levadas à letra, matariam de fome a população em poucos meses, até à desvalorização do setor nas politicas públicas nacionais e europeias, veja-se a irrelevância a que foi remetido o Comissário Europeu da Agricultura e o esvaziamento progressivo dos ministérios da agricultura em alguns Estados-membros, incluindo Portugal, passando pela burocratização crescente para acesso aos apoios, pela abertura cada vez maior do mercado europeu a produtos agrícolas de países terceiros e ao agravamento dos custos das matérias primas e da energia, tudo tem vindo a exercer uma enorme pressão sobre quem trabalha a terra e que aspira viver dignamente.
Sendo estas as principais causas da revolta dos agricultores, que as lideranças políticas não ignoram, fico expectante, tal como, certamente, os nossos ouvintes, sobre quais as soluções que irão ser claramente expressas nos programas eleitorais dos partidos que têm reais hipóteses de vir a governar o nosso país a partir do dia 10 de março.

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