Good cop/Bad cop

Crónica de Opinião
Terça-feira, 22 Novembro 2022
Good cop/Bad cop
  • Cláudia Sousa Pereira
A notícia não foi novidade para quem acompanhou as outras, as das reportagens sobre o “movimento zero” e dos bas-fonds do partido CH. Não é sequer novidade para quem, não lendo nem vendo jornais ou telejornais, já tenha ouvido certas conversas, em versão light, a alguns profissionais mais descontraídos, embora em serviço de ronda por cenários onde há vagar para tal.
O facto de ter sido um consórcio de jornalistas a trazer a público o comportamento ilegal de indivíduos das forças de segurança nacionais em redes sociais é caso paradigmático: são muralhas imateriais que se usam para prevenir, parece-me, eventuais consequências, bem físicas, como reacções de retaliação. A notícia é, então, a abertura do inquérito pelo imprevisível Ministério Público, tão dado a estados de alma que, enfim, me começa a deixar algo incrédula quanto à humanização das instituições e quase as desejar desalmadas. Quase…
Mas vamos às mensagens. Xenófobas, racistas, homofóbicas, instigadoras de ódio, este tipo de discurso “é mato” nos sítios em que não se dá a cara. Daí a passar para os outros sítios é um tirinho. E o processo não me espanta, já que tantas vezes nelas se assistem a desabafos em público, sem interesse nenhum ou com efeito cómico duvidoso, numa bizarra necessidade de chamar uma atenção constante sobre si. E que não são confundíveis com a divertida e saudável partilha do belo, do bom, do útil, da denúncia ou da dúvida que pede sugestões ou tem uma agenda própria para divulgar. São antes partilhas de si próprio, na trindade óbvia do me, myself and I.
Nas nossas redes sociais, por mais escolhidos que sejam os nós e os laços com que as construamos, há desabafos que destilam cheirinho a intolerância, hiperbolizam reacções, instigam tratamentos exemplares. E, quando não tem piada nem procura o ombro para chorar, tudo parece ser só uma busca desenfreada de validação, palmas ou companhia.
A dupla de agentes policiais em que, para dominar alguém pelo discurso, um é antipático e outro simpático conjuga-se num “ser uno” em ambiente perfeito para tal, com palco, holofotes e banda sonora. Quer-me parecer que quem é a pessoa que se quer dominar é de novo o próprio. A menos que o “ser uno”, tal como as pessoas xenófobas, racistas, homofóbicas e raivosas, tenha como objetivo, missão ou desejo endireitar o Mundo e proactivamente revelar-se-lhe, ao Mundo, exemplo de várias supremacias. Imagino que em carácter mal-formado uma farda de super-heróis (porque os há) possa ter esse efeito. E é por isso que nem toda a gente a pode envergar; e este é o cerne da questão. Sob pena, também, de já ninguém perceber bem as figuras que se fazem nas redes sociais que são, por muito naperonzinho que se desejem, públicas.
Entretanto, e não muito longe destes assuntos, lá começou o Mundial da Vergonha do século XXI, sobre o qual o que se me oferece dizer, para além do “eu não vou” (mas também ninguém me convidou, pelo que serve pouco o meu preguiçoso activismo, e me custe ver este lado pantanoso de um fenómeno que me enternece quando vejo o deslumbramento da miudagem com a nossa Selecção, a forma como se derretem com aqueles “cromos” que têm Deus nos pés); o que se me oferece dizer é que as associações internacionais que, e muito bem, lutam contra essa vergonha acordaram tarde. É que este Mundial foi para ali, para o Qatar, em 2010. Haveria então algumas diferenças naquele país? Fez-se alguma coisa para o modificar nestes 12 anos? Aguardo relatos ou relatórios.
Até para a semana.

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