Guião para um orçamento trágico

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 13 Outubro 2022
Guião para um orçamento trágico
  • Sara Fernandes

 

  • Primeiro acto: fazer acreditar que a esmola é grande sem que o pobre desconfie.

  • Segundo acto: fazer acreditar que nem vale a pena lutar e mostrar quão ridículo e antiquado é manifestar-se na rua. Não haja ainda quem consiga olhar para cima e ver quem é que afinal fica com o resultado do trabalho dos outros.

  • Terceiro acto: fazer acreditar que todos estão bem, menos nós próprios, e que a culpa é, certamente, nossa (não trabalhamos o suficiente, não sabemos gerir, comemos demais);

  • Quarto acto: transformar o desespero do dia-a-dia, pela falta de recursos para uma vida digna, em ódio contra o vizinho. Desaparecem da cena os políticos e aparecem casos e mais casos de pessoas más: que roubaram a família, que maltrataram os animais, que enganaram os da Segurança Social, que têm uma casinha e não merecem, e que a culpa da nossa infelicidade é deles!

Vamos ainda no primeiro acto. António Costa tem a habilidade de tirar, parecendo que dá. Podemos fazer as campanhas de combate à abstenção que quisermos, que é esta forma de fazer política que afasta os eleitores das urnas de voto.

Com 44 slides e hora e meia de apresentação, descomprometem-se do que estava acordado, dão, apenas num mês, uma esmolinha, e comprometem os aumentos de salários e pensões do próximo ano. Passo de magia inacreditável em que, roubando um salário inteiro, se quer convencer o Povo que está a receber uma dádiva.

Estas esmolas, qual sopa dos pobres, provocam, no imediato, um sentimento de gratidão, como se de uma prenda se tratasse, e o actual Governo é exímio no aproveitamento deste sentimento genuíno das pessoas, mas, a longo prazo, a indignidade desta caridade leva a sentimentos de frustração que aniquilam a esperança em sociedades diferentes.

É com este guião, encenado ano após ano, que se enganam os eleitores, levando-os a votar sempre nos mesmos PS’s, com e sem D, ou então desviando-os para o Tiririca (o tal do “pior do que está não fica”), sem perceberem que é só mais um engodo para manter o mesmo filme.

Até dia 25 de Novembro, dia em que se realizará a votação final deste OE, há muito a fazer. Para não deixarmos que a novela programada se torne a novela da nossa vida, vamos desfilar no dia 15 de Outubro, próximo sábado, em Lisboa ou no Porto, juntando trabalhadores, reformados e pensionistas pelo aumento justo dos salários e pensões, para que não continuem a fazer de nós bobos e da nossa democracia uma tragédia em 5 actos.

Se não for no Sábado à Manifestação, terei pena, mas vemo-nos para a semana!

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