Há excedentes e excedentes

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 03 Julho 2019
Há excedentes e excedentes
  • José Policarpo

 

 

O senhor ministro das finanças apresentou ao país um excedente orçamental das contas públicas num valor que há muito não era conseguido, um saldo positivo de 0,4% do PIB referente ao primeiro trimestre do ano em curso. É uma boa notícia em si mesmo, todavia é preciso conhecer o caminho que foi escolhido para que tal fosse possível.

Na verdade, as contas públicas apresentam valores muito aceitáveis se tivermos em consideração o histórico dos últimos quinze anos, há oito anos pedimos ajuda internacional. O défice público abaixo dos 0,5 % do PIB. Só a dívida pública portuguesa teima em não deixar o pódio dos países mais endividados da união europeia a par da Itália e da Grécia, respetivamente.

Acontece porém que o caminho para que Portugal apresente um défice público baixo é o resultado de cativações, muitas cativações. Dir-me-ão os entendidos: as cativações fazem parte da política orçamental, eu digo que têm toda a razão. Mas, pergunto eu: é aceitável que as cativações sejam a causa dos maus serviços prestados pelo Estado? Eu só encontro uma resposta. Um não categórico.

Ora, os maus serviços prestados pelo Estado, de uma forma indesmentível, têm respaldo na saúde, nos transportes e nos registos e notariado. São disso exemplo, a falta de médicos e enfermeiros no sector saúde com consequências nos cuidados de saúde, como, também, no adiamento de muitas cirurgias. No sector dos transportes, temos o caso da CP e o péssimo estado do equipamento circulante. Por último, no sector da justiça o atraso na renovação dos cartões de cidadão e as filas diárias para que os cidadãos consigam obter uma senha para que possam ser atendidos.

Dito isto, será que a boa notícia do excedente orçamental relativo ao primeiro trimestre não terá um lado demasiado dramático para ser considerada como boa, ou mesmo razoável? Eu temo que a vitória de Centeno à frente do ministério das finanças seja uma vitória de Pirro. Pirro ganhou uma batalha dizimando o exército contrário, porém, perdeu também o seu, ficando sozinho. Espero bem que Mário Centeno tenha lido e aprendido a lição com cerca de dois mil anos.

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