Hipocrisia colectiva

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 14 Dezembro 2017
Hipocrisia colectiva
  • Eduardo Luciano

 

 

As últimas semanas foram marcadas por alguns acontecimentos que tiveram o condão de revelar como o exercício da hipocrisia pode ser um desporto que toca a quase todos, manifestando-se através de notícias, comentários a notícias e debates sobre alegados factos e de como através dessa actividade frenética se deixa de pensar e discutir sobre o essencial.

Morreu um dos homens mais ricos de Portugal. Enquanto viveu foi justamente alvo de críticas pela forma como essa fortuna foi acumulada, de como defendia um modelo de economia assente no pagamento mínimo aos seus trabalhadores, de como explorava os pequenos produtores que vendem as suas produções para comercialização nos hipermercados de Belmiro de Azevedo em condições contratuais draconianas para quem produz, para gáudio também dos coleccionadores de descontos ocasionais.

Morto o homem, foi tratado quase como herói nacional pela comunicação social dominante, que os seus pares dominam, e defendido pelo os que na véspera teciam críticas.

Quando na Assembleia da República o PCP votou, coerentemente, contra uma proposta de voto de pesar que enaltecia a pessoa e a sua actividade empresarial, a discussão passou a ser sobre essa posição que alguns, erradamente, entenderam como de desrespeito pela perda de uma vida.

Curiosamente acharam legítimas as opiniões emitidas pelo falecido aquando da morte de Álvaro Cunhal.

Dias depois faleceu um carismático músico e tivemos um coro imenso de gente que nunca o apreciou, que nunca ouviu com atenção uma única música dos Xutos, que criticou o seu percurso de vida, a manifestarem pesar pelo seu desaparecimento a confessarem-se admiradores de músicas e atitudes que antes repudiavam.

Ao Zé Pedro nada disso lhe causa agora qualquer tipo de incómodo, mas a mim, confesso, incomoda-me esta histeria crescente e acrítica que acompanha o que parece ser socialmente correcto, ou melhor, o que parece ser bem aos olhos do vizinho do lado.

Esta semana foi dado conhecimento de alegadas irregularidades na gestão financeira de uma instituição dirigida por uma senhora que durante 15 anos foi cliente e fornecedora dos diversos poderes que governaram o país.

De repente toda a gente desatou a condenar, sem julgamento, o comportamento da senhora, não conseguindo separar o que é do foro exclusivamente privado do que é uso indevido do dinheiro que os doadores, entre eles o Estado, lhe confiaram para a prossecução de um fim que é obrigação constitucional do Estado.

Caiu um Secretário de Estado, há um Ministro em apuros, um deputado que ia ser nomeado dirigente da associação em causa recusou a nomeação, jornais e telejornais mostram fotografias que nada acrescentam ao apuramento de factos e que apenas servem para uma espécie de linchamento moral dos envolvidos.

Alegremente discute-se o preço do camarão, dos vestidos ou dos carros e os indignados de sofá pedem, no mínimo o esfolamento vivo de todos os envolvidos.

Entretanto, entre dois comentários nas redes sociais, vão ao supermercado do senhor que faleceu comprar pacotes de arroz que entregam nas mãos de uma qualquer outra senhora cuja actividade se rege pelos mesmos princípios da que acabaram de apedrejar, ou sentam-se em frente à televisão a ver uma gala, num qualquer casino, para angariar dinheiro para dar mais arroz e feijão para os pobres por si escolhidos.

Belo movimento de hipocrisia colectiva.

Até para a semana

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