Hoje é um novo dia

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 25 Janeiro 2021
Hoje é um novo dia
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Escrevo esta crónica na noite de eleições Presidenciais, quando estão fechados os resultados eleitorais, mas não houve ainda tempo para os analisar.

Não é uma noite de festa para mim que apoiei Marisa Matias, numa candidatura de corpo inteiro por um país mais solidário, mais justo e que trouxe para o debate a necessidade de defesa do Serviço Nacional de Saúde para travar o Covid 19 mas não só, do reconhecimento efectivo dos seus profissionais, como trouxe a necessidade de repor direitos de quem trabalha e está tão fragilizado pela crise económica e social que vivemos com a na pandemia, de defesa de futuro para os jovens e de uma sociedade igualitária ou pelo combate às alterações climáticas. Marisa que se levantou sempre pela defesa da democracia.

Mas creio que mesmo para quem apoiou a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa não é propriamente uma noite sem sobressaltos e que os riscos dos resultados eleitorais são patentes.

Estas foram umas eleições estranhas, num contexto estranho e preocupante, realizadas em condições diferentes das que alguma vez vivemos.

Preocupante pelo nível previsível de abstenção, a meio de uma pandemia, em estado de emergência suspenso apenas para o acto de votar, circunstância propiciadora do aumento da abstenção, já de si crescente neste tipo de eleições e em particular da reeleição de presidente. Não foi tão mau como se esperava, mas 60,5% é um nível muito elevado de abstenção.

Preocupante sobretudo pelo que representa o aumento da votação do candidato da extrema direita, pela drenagem que faz de votos do PSD e do CDS, dando início a uma reconfiguração da direita.

Rui Rio abriu a porta nos Açores à normalização da extrema direita e o Chega meteu o pé na porta entreaberta e não vai deixar fechá-la facilmente. O objectivo declarado é continuar a crescer à custa principalmente do PSD e no seu discurso este domingo Rui Rio parece que não percebeu nada do que lhe está a acontecer.

Mas o resultado deste domingo é também preocupante pelos resultados que obteve no sul do país e não apenas no Alentejo, onde o PSD e o CDS não foram os únicos partidos que viram os seus eleitores tradicionais a votar em Ventura.

Os resultados à esquerda não significam demérito das propostas que os candidatos apresentam, pelo contrário, mas tornam mais exigente o discurso e a acção dos partidos de esquerda.

É certo que o candidato da extrema direita não apresentou nem discutiu proposta séria, boicotou esse debate que lhe é desfavorável. Ventura não pode falar das suas propostas programáticas de entregar as escolas, os hospitais ou até as estradas a privados, porque de tão extremadas não serão aceites pelos seus eleitores. Nem pode falar abertamente no corte de direitos democráticos, que os ideólogos do partido preconizam.

Por isso enveredou pelo discurso populista, de café, com os tiques dos debates do futebol em que se treinou, atacando a torto e a direito os opositores e encontrando culpados para as dificuldades que a população tem e que o comum cidadão pode facilmente identificar: corrupção dos políticos, os subsídio dependentes, os ciganos, a bandidagem dos bairros sociais, os refugiados ou os imigrantes. Tudo por comparação com os seus eleitores, as “pessoas de bem”.

As sucessivas crises económicas que castigam quem é mais fraco, o desemprego, a precariedade, o trabalho mal pago ou sem condições, a perspectiva de não ter perspectivas geram a revolta e o descrédito nos sucessivos governos. E é pasto para a extrema direita autoritária.

Mas não nos equivoquemos, quem vota em Ventura não é só por isso fascista. Estes eleitores não querem maioritariamente para si as propostas do Chega. Não querem deixar de ter salário mínimo, não querem deixar de ter contratos de trabalho, não querem deixar de ter um Serviço Nacional de Saúde ou escolas públicas a que podem aceder. Querem, legitimamente, ter esperança numa vida melhor.

E é a estes cidadãos que a Esquerda tem de chegar. A eleição presidencial acabou este domingo e hoje é de novo dia de luta.

Protejam a vossa saúde

Até para a semana.

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