Ilustres desconhecidos e famosos medíocres

Crónica de Opinião
Terça-feira, 10 Abril 2018
Ilustres desconhecidos e famosos medíocres
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

A informação deste fim-de-semana, e que circulou nos seus meios institucionais, foi particularmente deprimente. A culpa? A haver, essa necessária culpa para que a narrativa se encaixe no objectivo consolatório de um best-seller, a culpa é de todos nós: os que são notícia, os que dão a notícia, os que vêem a notícia, os que ignoram a notícia e se estão a marimbar. A notícia deveria dar a informação, a ela dever-se-ia acrescentar o comentário que avança argumentação com o objectivo de ajudar a formar opinião. E isso também passa por dar o devido valor ao que é e deve ser “a” notícia.

Ao lado dos dramas quotidianos, sempre e bem incontornáveis, ao lado do facto que cumpre calendário, tivemos em realce, como notícia, a memória do Passado heróico de uma batalha perdida, falo de La Lys e das suas “papoilas” que representam o sangue derramado, e o desvario de um figurão mediático e, como tal, famoso presidente de um clube dos chamados grandes que têm no desporto-rei o seu capital de fama. Fazer coincidir estes assuntos não é o mesmo que compará-los, ou estaria a fazer o mesmo a que António Ferro se referiu, por volta de 1940, e que seria qualquer coisa como confundir o Caminho Marítimo para a Índia com a Junta Autónoma das Estradas. E já agora, também mais um episódio da grave situação política e social do Brasil concorreu para directos e debates, com a relevância do que é outra famosa comparação entre o buraco na minha rua com as cheias mortíferas na Índia. É também assim o relativismo.

Se um Centenário é sempre uma boa ocasião para ficarmos a conhecer melhor o que se comemora, os 100 anos da Batalha de La Lys, onde morreram centenas de soldados nossos e cuja participação portuguesa foi, à época, tudo menos unânime, teria sido uma boa ocasião para termos várias lições de História nacional e europeia. E com a pluralidade de perspectivas necessária e útil, até para se perceber quais os pontos convergentes e não fracturantes, úteis para quem queira, ainda assim e com todo o seu direito, ter apenas e só uma ideia sobre o assunto.

Hélàs! La Lys teve de competir com o presidente do Sporting Clube de Portugal. O eleito massivamente por aqueles que quiseram participar na vida política da sua corporação, por vezes talvez, os mesmos que se marimbam para a vida política da sua Nação. Se me interessava ficar a conhecer melhor La Lys da maneira sempre mais facilitada e parecida com o ócio, nem sempre sinónimo de menor qualidade entenda-se, e que é ver na televisão programas sobre o assunto, já todo o circo montado por e à volta de um indivíduo boçal e histérico em nada veio alterar a minha visão sobre o mundo, pelo menos o mediático que é aquele a que tenho acesso, do futebol. E tão distante do mundo do jogo em si!

Resumindo: perdeu-se um bom fim-de-semana para dar novidades sobre o que se passou há 100 anos para se ganhar audiências sobre uma banalidade do que é a constelação que gira em torno daquelas verdadeiras estrelas, as que têm Deus nos pés. Neste fim-de-semana eu queria ter estado mais como aquelas papoilas do poema de John McCrae, ao pé das cruzes da Flandres e dos que tombaram em La Lys ou, pelo efeito do gás de mostarda, por causa de La Lys. Resta-me o consolo da imortalidade daqueles ilustres desconhecidos, incomparável com a patética vontade de imortalidade de alguns sempre derrotados candidatos a semi-deuses.

Até para a semana.

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