Imoralidades

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 19 Janeiro 2023
Imoralidades
  • Sara Fernandes

Na comunicação social dos últimos dias temos visto a indignação, aparentemente de todos os quadrantes políticos, com diversos casos, dentro e fora do país, que só me fazem hesitar pela consensualidade que geram.

Sem dúvida imoral é a indemnização de meio milhão de euros, pagos a uma senhora na antevéspera da sua entrada para o Governo, por uma empresa à beira da falência, cujo principal accionista é, precisamente, o previsto novo empregador, ou seja, o Governo. E ninguém sabia de nada…

Imoral é também a medida de apoio aos mais carenciados, que permite renegociar o crédito à habitação, mas que com isso podem ser prejudicados já que o Banco os pode pôr na lista dos clientes de risco, partilhada entre todos os Bancos, comprometendo futuros créditos a quem o fizer. Mas os bancos são como os mercados, intocáveis.

Imorais são os lucros das grandes distribuidoras alimentares e os parcos aumentos salariais que ofereceram aos seus trabalhadores a quem chamam, hipocritamente, “colaboradores”.

Imoral é o “sentimento positivo e otimista” de António Serrano, presidente da Jerónimo Martins Agro-Alimentar, em Davos, ressalvando que só no final do primeiro semestre é que será possível “ter uma visibilidade mais acertada do que é que pode ser este ano, porque até lá vivemos num otimismo”.

Imorais são os mais de 1000 jactos pessoais que voaram para Davos onde reuniram os mais ricos do planeta, e que nessa semana emitiram tanto carbono como 350 mil automóveis, enquanto debatiam o futuro do planeta.

Imorais são as declarações do ministro das finanças, Fernando Medina, quando diz que os salários e os aumentos previstos estão adequados à situação actual. Adequados diz ele, mesmo quando o próprio Conselho de Ministros das Finanças da Unão Europeia “assume que o crescimento dos salários em 2022 ficou “bem abaixo da inflação” e que deverá voltar a ficar aquém da subida dos preços em 2023, defendendo que, “a evolução salarial precisa de um equilíbrio cuidadoso para proteger o poder de compra dos trabalhadores assalariados…”.

Imoral é dar esmola em vez de dar dignidade às pessoas. Imoral é trabalhar toda a vida e continuar pobre.

Imoral é permitir que a desigualdade na distribuição de rendimentos chegue ao nível a que chegou, em que a fortuna das 10 pessoas mais ricas do mundo equivalha à de 3200 milhões da população mais pobre.

Realmente imoral é defender com unhas e dentes o sistema, que permite todo este tipo de imoralidades, e que está sempre acima de qualquer crítica, o santificado e intocável sistema capitalista.

Até para a semana!

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