IUCs

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 26 Outubro 2023
IUCs
  • Nuno do Ó

Um dos maiores de sempre da música portuguesa, José Mário Branco, no tema Do que um homem é capaz, faixa de um álbum imperdível chamado Resistir é Vencer, que recomendo e onde me revejo em tudo, na música e no resto, referindo-se ao tal Homem, sublinha e cito, As coisas que ele faz / Pra chegar aonde quer.
Lembrei-me de mais este espantoso texto de José Mário Branco, ao constatar as coisas que eles fazem, para chegarem aonde querem, sempre em prejuízo dos mesmos. Os chamados socialistas, agora no governo, ou antes disso e em alternância, os sociais-democratas, que não têm nada de uma coisa nem de outra, nem uns nem outros, perseguindo essa sua constante e árdua tarefa de beneficiar sempre que possível e em primeiro lugar, os mais abastados, vieram agora, mais uma vez em sede de Orçamento de Estado, com mais uma brilhante pérola, semelhante a tantas outras do passado, das que nos continuam a afetar no presente do dia-a-dia.
Estou a falar do IUC. Para quem não sabe, o Imposto Único de Circulação, que é dedicado aos automóveis, ou melhor, aos seus donos. Diz a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, que presta assessoria à Assembleia da República na área das finanças públicas, que a atualização do IUC para os automóveis ligeiros com matrícula anterior a 1 de Julho de 2007 e os motociclos matriculados desde 1992, representa
uma penalização-surpresa dos veículos mais antigos. Já sem surpresa, diz ainda que a razão é pelo facto de o cálculo do tributo passar agora a incluir a componente de CO2, claro está, por razões ambientais.
Assim sendo, pensou o governo. Aonde e a quem é que vamos sacar mais algum para proteger o ambiente? Ora muito bem, alterando as regras do jogo a meio, resolveram ir chatear os desgraçados que tentam manter um carro à décadas, já velhote, porque não têm recursos para um novinho, estilo elétrico da moda, porque 50.000 euros, para o ordenado médio mensal português, já nem falo do mínimo,
significaria uma vida de pagamentos para a maioria das pessoas, a não ser que prescindissem de comer e
de tudo o resto, os próprios e a família, claro está!
Ora bem, uma pessoa tem um carro com dezasseis anos, por exemplo, um Renault Clio de 2007, que vale pouco mais que uns tantos IUCs, mimado até ao limite para ver se aguenta, a pagar um valor de cerca de 60 euros por ano de IUC, quer ande quer não e de repente, vindo do nada, aqui está a brilhante ideia de o fazer pagar mais 100 euros de IUC por ano, ficando a conta por cerca de 160 euros. E isto, naturalmente,
também é válido para um Fiat 600 de 1981 ou para as scooters que a malta comprou porque não tem
dinheiro para um carro.
É o efeito regulador e equilibrador do Estado. Ou pagam, ou não podem ter. Não poderão ter carro e terão que andar a pé, enquanto isso não pagar impostos. Também não poderão entrar nos centros das cidades, porque isso será só para os ricos. Assim como em Londres. Os híbridos da Bentley ou da Ferrari, que custam mais que uma casa, com certeza. Já o Fiat 600 do outro desgraçado, está impedido de entrar
na cidade porque polui muito. Sim, muito mais poluem os 600 cm3 do Fiat do que o V12 de 6 litros de cilindrada do Rolls Royce, híbrido, claro. E assim se constrói um apartheid económico. Só entra quem tem dinheiro e carros caros, só pode quem tem, só acede quem paga.
Fica a tal ideia peregrina do utilizador pagador, uma célebre ideia para afastar os pobres mal cheirosos dos locais de festa dos ricos, até porque assim se livram de filas intermináveis e dos chatos dos Clios e dos Fiats, que deviam era ir de comboio. Eu até acho que sim, sem fosse para todos, igualmente.
Uma sociedade de apartheid, onde os ricos detêm o poder, mandam e vão encostando os pobres aos muros que vão construindo em seu redor. Isto faz-nos lembrar qualquer coisa, não?
Canta o Zé Mário, por fim: Ficam cínicos brutais / Descendo cada vez mais / Pra subir cada vez menos / Quanto mais o mal se expande / Mais acham que ser grande / É lixar os mais pequenos (…)
Mesmo sendo os poderosos / Tão fracos e gulosos / Que precisam do poder (…) Há princípios e valores / Há sonhos e amores / Que sempre irão abrir caminho /E quem viver abraçado / Na vida que há ao lado / Não vai morrer sozinho / (…) / Não vai viver sozinho

Até para a semana!

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