João Cutileiro

Crónica de Opinião
Terça-feira, 03 Julho 2018
João Cutileiro
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

A semana que passou teve duas estreias do nome maior da Cultura portuguesa contemporânea, o escultor João Cutileiro: um documentário intitulado “A Pedra Não Espera” de Graça Castanheira, e que circulará pelas habituais plataformas em que estes documentários se podem rever, e uma exposição de todas as maquetes existentes que o Mestre-escultor fez para obras que estão expostas e foram expressamente feitas para estarem no espaço público. A exposição pode ser vista no Museu de Évora até Outubro.

E depois? Depois, haveria de ficar exposta, juntamente com o espólio que Cutileiro ofereceu ao País e à Cidade, num lugar que também já existe e que é a sua casa. Para quem vive ou conhece Évora, a cidade que João escolheu como muitos outros para viver, fica ali muito perto do seu Arco Triunfal que, à data de inauguração, tantas vozes de burro fez soar. Soube desta intenção há meia-dúzia de anos, como ideia a formar-se e que só depois encontrou um formato que sempre me pareceu o possivelmente ideal. O objectivo disse-o Cutileiro, na sua sempre frontal maneira de dizer o que pensa e o que quer, em 2016 era então Ministro, por pouco tempo, João Soares: “Para poupar os meus filhos de ficarem com isto, palavra de honra”, acrescentando que o “espaço seja utilizado para fins culturais/académicos relacionados com a sua produção artística, nomeadamente para o estudo e formação na área da escultura em pedra, onde se incluem actividades relacionadas com a realização de exposições, residências artísticas, visita e fruição pública”.

Parece que a “coisa” tem andado embrulhada. Que falta a assinatura do Governo a aceitar a doação, dizem. Eu que com a experiência de gestões várias deixei de fazer aquele exercício retórico de café em que se diz “Se eu mandasse nisto”, porque sei que mandar não é fácil e o que se manda fazer hoje muitas vezes deixa de ter a urgência passado algum tempo, voltei a sentir esse impulso. São três as entidades que gerirão o espólio de Cutileiro: a Direcção Regional de Cultura do Alentejo, organismo descentralizado do Estado, a Universidade de Évora e a Câmara Municipal de Évora. Nesta, a maioria absoluta deveria dar o conforto de trabalhar afincadamente num dossier que se considerasse de interesse primordial, na área da Cultura em que a cor ideológica dos que lá mandam sempre reclamou ser seu monopólio tratando os outros como amadorzecos no assunto; a Universidade de Évora que goza de uma autonomia excepcional no contexto da administração pública e que também afirma continuar a apostar nas Artes; e a Direcção Regional que, imagino, reunirá com quem a tutela mais vezes do que qualquer empenhada instituição cultural deste País. Porque se arrasta há três anos este gesto maior da Cultura no Alentejo? O culpado estará certamente ali mais adiante e as coisas embrulham-se como a lentidão dos dias do Estio ao Sul.

Isto vai acontecer, João, ai vai, vai! Mas o que eu gostava que tu estivesses ali no momento solene das assinaturas… Para dares com a força toda essa marretada com que ao longo da tua vida descobriste na Pedra a Arte que nos dás, e de que viveste sempre sem pudores de ganha-pão. E a deixares-nos a nós a criação maior do que distingue a Humanidade do resto da Natureza: a criatividade. O que eu gostava, João. Ai, se eu mandasse nisto!…

Até para a semana.

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