Joe vs Zé

Crónica de Opinião
Terça-feira, 06 Julho 2021
Joe vs Zé
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Com a prisão de Berardo, de quem todos já suspeitávamos tratar-se de uma personagem que desliza bem no palco de uma certa vida com glamour: um tipo com bom gosto para a Arte, para o vinho e para o uso do muito dinheiro, num estilo à talentoso Mr. Ripley; com a sua prisão, os despojos morais disputam-se entre quem concorre ao lugar de quem mais contribuiu para a queda do pano.
Entre os deputados da Nação que, em comissão parlamentar, optaram pelo guião cómico, e o juiz Carlos Alexandre que armou a sua já habitual cena de policial em canal de TV cabo, as câmaras sedentas de filmaços andaram numa fona e recolheram alegria aos molhos.
Lembram-se, talvez, de um sketch dos Gato Fedorento em que “Fuck you” seria impropério mal-educado na boca de um pobre, mas excêntrico e muito giro dito por um rico; e de um “minicaixotinho” que se tornava numa obra de arte interativa com valor na Bolsa. Alguns, muito poucos, tiravam já a pinta ao ambiente onde todos se pelavam por ir dar um pezinho de dança e fazer um tchim-tchim. Mas o glamour partilha com a cobiça a vantagem de ofuscar todos, até já só com lantejoulas de pechisbeque usadas com a mesma arrogância com que se usam diamantes, e com a desculpa de que o dinheiro é todo da mesma cor e fica bem no bolso de qualquer um. Quanto mais com Arte, senhores, com Arte! A que dizem que eleva as sensações, as emoções e, em curto-circuito, amolece os corações mesmo diante do glamoroso intrujão que albarda melhor o burro ao costume de quem já está no meio das traficâncias de favores e cifrões.
O curioso, neste último acto de Joe a caminho de voltar a ser Zé, é ele repetir vários enredos ficcionais, ou mirabolantes casos passados da vida real. Faz sobretudo lembrar aquelas histórias passadas nas grandes capitais ocidentais dos loucos anos 20, ou até dos 50, pós-guerras portanto, em que à festa constante das elites, as que podiam beber champanhe ao pequeno-almoço e trincar umas ovas de esturjão antes de aterrar na almofada, se juntavam uns infiltrados capazes de deslumbrar pela sua ousadia em aproveitar as desbundas e ajudar à festa. Ao curioso da repetição junta-se o triste ímpeto dos que, ficando do lado de fora do casino glamoroso, murmuram vendo passar os bólides de que se pudessem faziam o mesmo. É assim que a roda-viva, mesmo que abrande, nunca parará. E que a euforia de pseudo heróis justiceiros também não ajuda.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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