José Saramago nasceu há 100 anos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 20 Outubro 2022
José Saramago nasceu há 100 anos
  • Sara Fernandes

 

Estamos hoje entre a comemoração do centenário do nascimento de José Saramago (16 de novembro de 1922) e do 24º aniversário da atribuição do Prémio Nobel ao escritor (8 de Outubro de 1998).

Da obra literária pouco ou nada direi, pressupondo que se pode falar de conteúdo sem falar da forma, mas procurarei assinalar estas efemérides através da memória de algumas passagens da sua obra, cuja mensagem é a mais honesta e humanista que li de entre todos os outros autores portugueses a que recorri ao longo da vida.

Saramago não é fácil, dizem-me, por vezes. “Já lhe peguei, mas desisti logo…” e eu respondo:

– É preciso pôr a roda a rodar, a engrenagem demora um pouco a aquecer, mas depois flui quase sem necessidade de força, entrando no ritmo da sua escrita, difícil é sair da roda dentada que se activa.

Como as crónicas se querem curtas, vou citar apenas duas passagens do discurso proferido na cerimónia de entrega do Prémio Nobel, evocando os 50 anos sobre a Declaração Universal dos Direitos do Homem:

As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. (…) Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não sabem, seja porque não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitem os que efectivamente governam, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a uma casca sem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia.”

E Saramago não falava certamente das 99,9% de Micro, Pequenas e Médias empresas existentes em Portugal, mas sim, daquelas a que chamamos “grande capital”, invisíveis aos olhos, mas dominantes das nossas vidas e da nossa frágil democracia e às quais o Poder, nas mãos do PS e PSD, se tem sistematicamente subordinado.

E continua Saramago:

Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direitos Humanos, e com isso julgámos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reconhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa.”

Ao contrário do que alguns querem ler, nestas palavras não há conformismo, pelo contrário, Saramago foi um militante activo na construção de um país democrático, apesar de grande crítico da democracia em que vivemos. Diz ele:

Uma democracia que não se auto-observe, que não se auto-examine, que não se auto-critique, estará fatalmente condenada a anquilosar-se.” E continua “Não se conclua do que acabo de dizer que estou contra a existência dos partidos – sou militante de um deles. Não se pense que aborreço os parlamentos: querê-los-ia, isso sim, mais laboriosos e menos faladores. E tão-pouco se imagine que sou o inventor de uma receita mágica que, doravante, permitirá aos povos viverem felizes sem governos: apenas me recuso a admitir que só seja possível governar e desejar ser governado de acordo com os modelos democráticos em uso, a meu ver incompletos e incoerentes, esses modelos que, numa espécie de assustada fuga para a frente, pretendemos tornar universais (…)

É com este princípio dialéctico que o PCP avança e toma a iniciativa. Promovendo um debate profundo sobre a situação política actual, apontando caminhos e propondo soluções, nos próximos dias 12 e 13 de Novembro teremos a Conferência Nacional do PCP sob o lema:

Tomar a iniciativa, reforçar o Partido, responder às novas exigências!”

Até para a semana!

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