Judite e Natália

Crónica de Opinião
Terça-feira, 07 Dezembro 2021
Judite e Natália
  • Cláudia Sousa Pereira
Nos últimos dias estive mais envolvida com textos e vidas de duas Autoras que foram colegas de Curso e teriam completado neste ano 100 e 95 anos, e gostava de partilhar convosco esse privilégio. Com dois percursos muito diferentes, nenhuma delas teve, no meu entender, o reconhecimento, ainda, que a obra que deixaram merecia. E, acrescente-se, apesar do que a Universidade de Évora fez por uma, pode fazer por outra, podendo fazer ainda muito por ambas. Mas já lá vamos.
A Maria Judite de Carvalho (1921-1998) foi atribuído o Prémio Vergilio Ferreira em 1998, mas a Autora morreu pouco tempo antes e não chegou a tê-lo nas mãos. Tem a sua obra completa reunida em três volumes da editora Minotauro. Maria Natália Lima (1926-2006) ficou esquecida, depois de ter ganho um Prémio atribuído por um distinto júri e promovido pelo Diário de Coimbra, pelo Instituto Alemão e pela Editorial Verbo em 1973. E de se terem esgotado nesses anos as edições das suas duas obras que foram então publicadas e das quais só agora se reeditam, com uma terceira inédita, em trilogia pela Âncora editora. Eu disse que ficou esquecida, mas não, entenda-se, pelos jovens leitores que, na segunda metade dos anos 70, inícios de 80, devoravam livros, como esta privilegiada vossa cronista fazia.
Maria Judite acabou por viver na sombra de um marido cheio de sucesso no mundo das Letras, em que a Academia tinha, e ainda terá, um enorme peso: Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), colega de curso de ambas na Faculdade de Letras de Lisboa. Maria Natália ter-se-á deixado ultrapassar não apenas pela sua própria vida de mãe dedicada de 10 filhos, mas por um contexto da edição para públicos juvenis, e respectiva atenção académica, que só no finzinho do século XX e sobretudo a partir de 2006 com a criação do Plano Nacional de Leitura, ganhou mais interessados, ainda que sempre à margem dos interesses do cânone, ainda que este já não viva propriamente num condomínio assim tão fechado.
Se a Universidade de Évora teve o seu papel em 1998 com o Prémio Vergilio Ferreira e assinala hoje o centenário de Maria Judite, foi graças à edição muito bem supervisionada, juntamente com os seus irmãos, pelo Professor de Filosofia na nossa Universidade, João Tiago Lima, um dos 10 filhos de Maria Natália e Rui Pedroso Lima, que Maria Natália Lima fica agora disponível nas livrarias. E contará comigo para estudar e divulgar essa trilogia que reúne Os Outros e Eu, A Liberdade e Eu, Ele e Eu, rendida que estou, na releitura, à qualidade desta mini-saga literária que vem, na minha opinião, preencher um espaço que ainda persiste vazio nas estantes dos livros mais lidos por jovens portugueses.
Aproximando-se a quadra em que a haver folga nas finanças domésticas se compram prendas para oferecer, sugiro que antes de embrulharem as obras destas duas Autoras, as leiam também. As duas tão diferentes na escrita uma da outra: uma existencialista; outra realista. Como também serão diferentes os potenciais leitores. Ambas atentas conhecedoras dos comportamentos do ser humano em sociedade, ambas exímias artistas da palavra que se transforma em frase, parágrafo, texto literário que cria mundos e lê o Mundo. Contextos com pretextos próprios em que importará, depois, pensar mais um pouco.
Até para a semana.

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