Lares, uma tragédia

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 14 Setembro 2020
Lares, uma tragédia
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Se a pandemia de Covid 19 veio pôr a nu as fragilidades da nossa organização e o resultado de anos de desinvestimento em sectores do Estado, aquele em que de forma mais significativa e dolorosa as fragilidades ficaram à vista foi a dos lares de idosos.

O país acordou, finalmente, para a situação dos nossos idosos, talvez os mais penalizados em toda esta pandemia de Covid. Sozinhos, isolados das famílias, muitos alojados em estruturas que não conseguem dar resposta às suas necessidades, vítimas principais do vírus.

E se hoje recomeço estas crónicas com a situação dos idosos e as estruturas que os apoiam não o faço por causa do caso do Lar ilegal que foi há dois dias identificado em Évora e da situação dos 29 idosos e dos 10 trabalhadores. Ou que o faço por causa do Lar de Reguengos de Monsaraz e dos 18 mortos, tantos num injustificável estado de desidratação.

Qualquer destes casos é importante e choca-nos, mas infelizmente não são casos únicos. São apenas dois dos muitos casos de descuidos, abandono e, sobretudo, de desatenção e omissão das responsabilidades por parte das entidades públicas perante a situação de tantos milhares de cidadãs e cidadãos, que após uma vida de trabalho se vêm limitados na sua autonomia e até na sua privacidade, partilhado quartos, sem ocupação aguardando sentados à volta de salas inóspitas, deprimentes, que o fim chegue. E para centenas o fim chegou com o nome de Covid.

Em Portugal residem em Lares cerca de 125.000 pessoas e destas cerca de 30%, ou seja 35.000 pessoas vivem em lares ilegais. São cerca de 3.500 lares ilegais, um número que devia envergonhar a todos.

Mas qual é então o papel das entidades públicas – Segurança Social e Autarquias – perante tantas estruturas e lares ilegais? Não se diga que não sabiam da sua existência, porque faz parte das suas atribuições e competências a fiscalização.

Há é um fechar os olhos, hipócrita tantas vezes, porque os velhos valem pouco e porque se procederem ao encerramento de lares ilegais ou com deficiente funcionamento, como deveria ser feito, coloca-se um “problema”: encerram o lar e que fazem aos utentes?

O Estado nunca olhou para este sector que deixou crescer nas mãos dos privados e das IPSS, maioritariamente ligadas à igreja, reservando-se o papel de pagador – a SS transfere anualmente 600 milhões de euros para estas instituições – que pouco escrutina, em vez de construir uma resposta pública para as necessidades dos cidadãos mais idosos.

É claro que neste momento é preciso ter respostas robustas para a situação trágica dos lares, não apenas para os seus utentes, mas também para os trabalhadores e trabalhadoras, que têm uma tarefa difícil, pesada, agora perigosa e muito mal paga. É necessário reforçar equipas e articular serviços médicos e cuidados diários, é preciso travar os surtos pandémicos nos lares.

Mas é tempo também de mudar este paradigma: é preciso criar uma resposta pública, opondo à institucionalização como regra a criação de condições para que os mais idosos permaneçam nas suas casas o máximo tempo possível, adaptando-as à mobilidade mais reduzida, criando equipas de apoio domiciliários, com mais trabalhadores de forma a que possam prestar apoio durante mais tempo diariamente e todos os dias da semana, estendendo o estatuto de cuidador, mudando o conceito de centro de dia e criando respostas mais próximas das necessidades dos utentes, como sejam soluções de co-housing ou respostas comunitárias.

Não podemos continuar a fechar os olhos à situação dos mais idosos e a permitir tanta indignidade. Devemos isso aos nossos pais e avós. Devemos isso a nós próprios.

Até para a semana!

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