Luís Carmelo morreu

Nota à la Minuta
Terça-feira, 02 Maio 2023
Luís Carmelo morreu
  • Alberto Magalhães

 

O Luís Carmelo tinha uma prodigiosa vitalidade criativa, quer se tratasse de escrever romances, desenhar cidades imaginárias, construir poemas, inventar personagens radiofónicas e desnudar-se em misteriosas performances. Mas, coexistindo com o artista, de forma espantosa, mas consistente, havia o pensador, de profundo conhecimento filosófico, o professor e investigador de semiótica, o arqueólogo da cultura ocidental. Ouvi-lo falar de improviso impressionava, pela beleza e profundidade das palavras.

Em 2002, o Luís publicou “Músicas da Consciência – entre as neurociências e as ciências do sentido”, com prefácio de António Damásio, o qual dizia: “muito do que geralmente se escreve acerca do conhecimento e do acto de conhecer tem amiúde acabado por desiludir”; e mais adiante: “Carmelo é a raridade no panorama das recentes contribuições sobre este tema”.

O Luís era realmente uma raridade. Houve uma altura da sua vida, depois de andar pelo estrangeiro, em que decidiu voltar para Évora, sua terra natal. Passados uns anos, sufocado, quase zangado, pela pequenez do meio cultural eborense, acabou por rumar para Lisboa, a tempo inteiro, onde construiu escola e deixou marca.

O meu grande amigo Luís Carmelo, artista, poeta, filósofo e tudo, morreu no domingo passado, deixando tantos livros por escrever. Casámos juntos em 2007 e estava a contar com ele para discursar no meu funeral. A vida trocou-nos as voltas.

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