Lutas de palavras

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 10 Fevereiro 2021
Lutas de palavras
  • Alberto Magalhães

 

 

Para compreender o poder das palavras e a importância que têm em qualquer contexto humano, basta evocar a novilíngua, imposta pelo governo totalitário da distopia de Georges Orwell. Em 1984, de que existem várias e recentes edições em português, a língua é moldada oficialmente e muitas palavras vão sendo retiradas de circulação, enquanto outras se vão acrescentando, normalmente com duplos-sentidos contraditórios, com o intuito manifesto de atabafar o sentido crítico dos cidadãos.

Por exemplo, “duplipensar” descreve a arte de dominar a duplicidade de pensamento, saber que algo está errado e, ao mesmo tempo, estar convencido de que tudo está certo. Outro exemplo, “crimideia”, indicando a existência de pensamentos ilegais. Palavra que precisava mesmo de ser inventada, esta: “negrobranco”. Se aplicada a um adversário significa o defeito de afirmar que o preto é branco, apesar das evidências em contrário. Aplicada a um membro do Partido, significa a lealdade de afirmar que o preto é branco, se isso for no interesse do Partido.

Salto agora de 1984 para 2021, voltando à questão de ontem. Vou pô-la assim: quando, devido à pandemia, e sob estado de emergência, o Governo decreta medidas excepcionais, ainda que legítimas, que prejudicam a actividade de determinados sectores económicos, afectando os rendimentos de empresários e trabalhadores, podendo mesmo levar a falências e desemprego, que deve o Estado fazer? Apoiar empresários e trabalhadores com ajudas e subsídios? É aqui que, para mim, entra o poder da palavra.

A palavra é “indemnizar”. Se o Estado, para bem comum, prejudica os legítimos interesses de alguns, não deve apoiar, nem ajudar. Tem de indemnizar, pagar os danos causados, redistribuir o prejuízo.

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