Mais vale não feito

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 07 Dezembro 2023
Mais vale não feito
  • Alexandra Moreira

A divulgação das conclusões da Comissão Técnica Independente sobre a localização do novo aeroporto veio relançar a discussão sobre um assunto com décadas transmutado em novo mantra nacional.
De repente, parece que já ninguém consegue perspetivar o progresso do país sem a construção do mega projeto aeronáutico.
Mais ainda depois de sabermos que um qualquer ranking de avaliação de aeroportos colocou o aeroporto da Portela no quarto pior lugar. Não interessa se os critérios dessa avaliação passam pela pontualidade e organização, o que importa é provarmos ao mundo que conseguimos construir o maior ‘hub’ do mundo, com 136 vôos por hora.
Não há dinheiro para a saúde, para a educação, para a justiça, para a administração pública… mas haverá sempre verba para satisfazer os caprichos megalómanos de um país de prioridades invertidas. Sim, que os acessos e as ligações ferroviárias ao aeroporto no valor de 2 mil milhões de euros sempre sairiam do erário público. A fatura até pode pagar-se a médio prazo, mas a questão é se temos mesmo necessidade de construir essa mega estrutura de impactos ambientais e urbanísticos tremendos.
E se a decisão, de entre as duas consideradas “viáveis”, for Alcochete esses impactos são particularmente graves: a estimativa aponta para a desarborização de mais de 1200 hectares, com o abate de 250 mil sobreiros. Repito: 250 mil sobreiros. Ou seja, a destruição de todo um ecossistema de montado com enorme valor de conservação e biodiversidade. Está igualmente em causa a contaminação irreversível do aquífero Tejo-Sado, a maior reserva subterrânea de água doce de Portugal. Tudo isto não é novidade, são objeções sempre apontadas a Alcochete nos inúmeros estudos anteriores.
É, portanto, de lamentar que o critério ambiental tenha cedido a outros interesses, no cômputo da avaliação técnica, como bem ajuizou a líder do PAN, infelizmente a única líder política que manifestou preocupação com a opção por Alcochete.
E é com muita inquietação que tenho ouvido grande parte dos responsáveis políticos sustentando que já esperámos demasiado, que há que decidir e construir quanto antes, que “mais vale feito do que perfeito”. Diria eu, mais vale não feito do que irremediavelmente desfeito.
O facto de termos passado os últimos 50 anos a debater o assunto não implica que tenhamos que o assumir como uma qualquer fatalidade. De lá para cá o mundo mudou e a tendência, determinada pelas metas climáticas, é, e continuará a ser, a crescente restrição das viagens aéreas e a forte aposta na ferrovia de alta velocidade.
A grande prioridade nacional no setor dos transportes devia, deve, ser a instalação de uma rede ferroviária intercidades em condições.
Em matéria de viagens aéreas, temos soluções baratas, à medida da nossa bolsa, e alinhadas com os valores ambientais e da coesão territorial. A opção pelas infraestruturas já existentes de Beja como complemento a Portela serve inteiramente esses desígnios.

Até para a semana.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com