Marcelo: a revelação (episódio 1)

Terça-feira, 05 Abril 2022
Marcelo: a revelação (episódio 1)

 

Até os eleitores engolem sapos, o que só comprova atenção e convívio democrático no mundo dinâmico da Política. Um mundo em que há princípios inabaláveis, mas com formas e modos de os aplicar ajustáveis a circunstâncias e contextos que se alteram muito e, por vezes, depressa. É por isso que a popularidade de indivíduos eleitos com largas maiorias pode oscilar muito com o tempo e a acção.

Por outro lado, é sabido que a palavra “revelação”, ao contrário do uso que lhe damos no dia-a-dia, significa etimologicamente “tornar a velar”, ou seja, “voltar a esconder”. Por isso, uma revelação requer, de quem se interessa pelo assunto envolvido, um trabalho constante de descodificação dos possíveis significados do dito assunto.

Sabemos também que “o segredo é a alma do negócio” e que saber guardá-lo é tão valioso que muitos gostam de pavonear-se dizendo que têm um segredo e, vai-se a ver, afinal já toda a gente o conhece. Hábitos de terra pequena, ensimesmada, pouco dada a crescer e a tentar respirar melhor.

Ora, e focando-nos no assunto da crónica, Marcelo Rebelo de Sousa já várias vezes revelou tiques de não ser o “porreiraço” que aparenta (desculpem-me o plebeísmo, mas tentei só “descer” ao nível da selfie que o mais alto dignitário da nação cultiva na sua agenda pessoal). “Porreiraço” que não tem de ser, entenda-se, mas que lhe serviu para ir escondendo uma agenda pessoal e partidária. Nem conseguiu deixar de condicionar os jogos internos do seu Partido. Foi assim que, no meio de várias brilhantes intervenções de um patriotismo e cultura democrática inexcedíveis, como um Presidente tem e deve ter, houve dois momentos recentes em que teve, ao mesmo tempo, imperceptíveis mas espectaculares deslizes. E chamo-lhe deslizes, porque não tiveram a evidência de um percurso construído de forma muito cúmplice com o saber-fazer da comunicação social. E espectacular porque foram momentos TV. O saber-fazer de Marcelo neste palco é evidente: lembremo-nos como praticamente despediu uma Ministra da Administração Interna em directo à frente das câmeras e microfones. Foi assim que Marcelo voltou, no passado dia 30, a fazer descaradamente o favor ao seu Partido, fazendo a ameaça de que deitaria abaixo, sem apelo nem agravo, o Governo eleito com maioria absoluta, caso acontecesse o Primeiro Ministro sair desse lugar. Para além da ameaça, o que fez foi equiparar António Costa a si próprio, já que só o sufrágio para a Presidência da República é votação para uma só pessoa. Ou seja, até se desvalorizou para alimentar rumores que circulariam sobre António Costa e a Europa.

Mas voltemos aos tais dois deslizes espectaculares. O primeiro, quando o orçamento foi abaixo, numa altura em que o PSD estava todo impreparado para enfrentar uma campanha eleitoral, e o senhor foi pagar contas ao multibanco. O segundo, quando ignorou a imprecisão de um rumor da lista de ministros e sobrevalorizou a esperteza do par de que ele, se calhar, achava ter o monopólio: comunicação social e políticos. Não foi sozinho ao multibanco, mas cancelou a reunião ritual entre “palácios”. Acontece isto quando o que se seguiu ao disparate do assunto da contagem de votos no círculo da Europa, foi a confirmação do desaire do PSD. Acontece muito, este tipo de birra, com miúdos mimados que, quando confrontados com a sua asneira e castigo, desatam a “disparar” contra objectos para onde transferem a sua frustração: vão dar uma volta sozinhos ou dizem a todos que já não são amigos deles.

É que também é muito tramado quando o segredo do negócio, que não é segredo nenhum, deixa de ser de uso exclusivo, não é? Ou a comunicação social não podia arriscar previsões a não ser quando a fonte fosse a clique da trintona vichyssoise? (Sim, sim, evocação do episódio de 1991 em que Marcelo mentiu, enquanto fonte tida por fidedigna, ao jornalista que era, então, Paulo Portas, lembram-se?).

Atentemos nas prováveis próximas revelações de Marcelo, que teremos de ir desvendando. E façamo-lo com essa atenção que requer uma leitura quase literária, certamente política: concentrada e tomada à partida como complexa.
Até para a semana.

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