Marega e o racismo

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 17 Fevereiro 2020
Marega e o racismo
  • Alberto Magalhães

 

 

Em miúdo frequentei o estádio do Restelo ao lado do meu pai e de outros ‘doentes’ do Belenenses. Vicente na defesa, Matateu e Iaúca na frente, eram os meus ídolos incontestados. Acontece que, com a adolescência, começou a ser claro para mim – falha que me acompanha até hoje – que a paixão clubística levava pessoas, aparentemente normais, a paroxismos de cegueira, enviesamento perceptivo agudo e comportamentos insuportavelmente arruaceiros e indignos. Sem sombra de remorso, negavam as faltas cometidas pelos “nossos”, inventavam faltas aos “outros”, lançando aos árbitros, e às suas mães, os maiores insultos. Pior, olhavam-me de lado, como traidor, quando eu destoava conscienciosamente do coro fiel à cruz de Cristo. Aos 14 anos, discuti com o meu pai, rasguei o cartão de sócio e deixei de ir ao futebol.

Ontem, Marega marcou o golo de vitória do Porto, em Guimarães, e festejou apontando para o seu braço negro. Alegadamente respondia a “insultos racistas” não especificados até agora. Parte dos adeptos do Vitória, sentindo o gesto de Marega como provocação, passou os 10 minutos seguintes a assobiá-lo e a guinchar como os macacos, diz quem ouviu. Ora, comparar negros a macacos é evidente manifestação racista. Obviamente condenável.

O que é de espantar, é que os árbitros e auxiliares, em geral mais ou menos brancos, possam ser insultados, na melhor das hipóteses, como burros, sem que ninguém se indigne por ouvir uma claque zurrar. E quando lhes atribuem o ofício de fazer panelas, não consta que Catarina Martins venha gritar: “homofobia não é opinião, é crime”.

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