Mensagens de quase amor

Crónica de Opinião
Terça-feira, 15 Dezembro 2020
Mensagens de quase amor
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Por ter parecido estranho a alguns ter dito, na última crónica, que andava há décadas interessada em representações literárias do amor (aliás, uma banalidade na área em que trabalho), hoje vou aproximar-me do assunto por outro ângulo. Mas também o faço porque estamos a entrar naquela época do ano em que, ao abrigo da quadra, se aproveita o amor familiar como uma boa desculpa para festejar, ainda que sobretudo muito se traduza em fazer circular a economia, numa fúria consumista que normalmente ultrapassa o espírito da troca em presença. E criando até, neste 2020, armadilhas propiciadoras de incoerências. É que a melhor prova de amor que podemos dar àqueles com quem quase só estamos sobretudo nesta altura do ano é precisamente a distância física, essa inimiga de amores vários.
Foi assim que me apeteceu partilhar a minha última “descoberta”, mais lúdica do que profissional, bem entendido, mesmo quando nunca conseguimos desligar-nos do que escolhemos fazer para ganhar a vida sem perder tempo. Trata-se da classificação, com direito a designação própria e compósita, de uma forma de ensaio do discurso de sedução: o “flirtexting”. Sem a intimíssima grotesca tendência, nua e crua, do discurso pornográfico, a que chamam “sexting” pois claro, o “flirtexting”, ao que li, pode tornar-se numa espécie de versão de romance epistolar amoroso da era dos tweets: exercício de brincadeiras leves com palavras e sentimentos que, aparentemente, não passam disso. Ora se houve coisa que aprendi com Valmont, Cécile e Madame de Merteuil é que estas trocas de insinuações amorosas podem transformar-se em ligações perigosas: basta responder, nem que seja a dizer “não”, para se entornar o caldo. O que acontece quando o que se diz por escrito é inconfessável olhos nos olhos em público, que se complica no jogo de interpretações e pode saltar do papel – ou ecrã no caso do “flirtexting” – para a alcova. Mas não vamos já pensar no pior, porque também tudo pode não passar disso mesmo, do flirt-em-modo-verbal, num regresso discreto à adolescência de amizades e paixões arrebatadas e arrebatadoras que circulavam na tribo dos amigos do bairro ou da escola.
O discurso amoroso, que é sempre ridículo quando diálogo assistido por terceiros, tem padrões e efeitos muito próprios e certeiros quando complementam a relação presencial. Quando não, transforma-se em exercício lúdico de sedução. As mensagens de “flirtexting” são, por isso, suplementos apimentados e salerosos que talvez ajudem a passar a monotonia dos dias infelizes. Nada a condenar, sobretudo a quem este tipo de exercício tem efeito tão benéfico como para outros a contemplação a dois, ou mais almas afins, do belo como consolação. Às vezes com cheirinho a risco, aventura, transgressão, segredo ou traição, o que, em certos contextos, nem sempre é algo de que nos possamos gabar.
Passando para a estranha realidade que atravessamos, diria que as videochamadas entre familiares forçosamente agora distantes são o melhor substituto, não passando de ilusão, para a presença afectuosa e concreta, de cuja falta tantos se queixam. E no Natal parece exacerbar-se a obrigação da expressão dos bons sentimentos (até se fazem tréguas dos maus, em muitas casas). Voltando à minha descoberta em comunicação virtual (será que lhe posso chamar assim?), uma das diferenças entre as mensagens amorosas e as mensagens do “flirtexting”, é que umas são continuação de relações que existem e preenchem as ausências, enquanto as outras, escondidas nas palavras, emojis e innuendos, criam a impressão de presença de algo – a intimidade até sensualizada – que, à partida, é para permanecer ausente. Concluindo e regressando ao Natal, temos nas nossas relações, quase todos, aqueles com quem nos juntamos e aqueles a quem só fazemos o telefonema habitual. Chega uma pandemia e parece que tudo se mistura e confunde. Uma chatice. Foi aqui que me apercebi o quanto de “flirtexting” há nas mensagens natalícias que se instituíram a vários níveis. Quem não enviar ou receber pelo menos uma por Natal pode até sentir-se mal-amado ou ingrato, o que é só triste. Assim sendo, para manter ilusões, toquem-se sininhos e soltem-se as palavras de ordem, como “próspero”e “santo”, embrulhadas num sempre participativo contexto a que chamamos “votos”. Posto isto, seguem os meus de Santo Natal e Próspero Ano Novo. Um flirtzinho aparentemente inócuo mas que ajuda quem exerce a ultrapassar a monotonia dos dias. E neste 2020, a parecer que, não estando, tudo está na forma do costume.
Até para o ano.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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