Mentiras a bem de causa justa

Nota à la Minuta
Terça-feira, 12 Fevereiro 2019
Mentiras a bem de causa justa
  • Alberto Magalhães

 

 

Falemos então do exagero, ou mesmo da mentira, “a bem de causa justa”. Seja a causa justa o combate à violência doméstica. O jornal Público, na terça-feira, dia 5, titulava na primeira página: “Número de mortes por violência doméstica disparou em Janeiro” e em subtítulo explicava: – Nove mulheres assassinadas desde que o ano começou, mais do dobro das vítimas de Janeiro de 2018.

Primeira incorrecção, mesmo assumindo 9 mortes por violência doméstica em Janeiro, e sabendo-se pelo corpo da notícia que, em Janeiro de 2018, foram cinco as mortes, dificilmente poderíamos aceitar que nove é mais do dobro de cinco. A excitação não ajuda ao cálculo mental, mas convenhamos que a primeira página merecia mais cuidado.

Depois, o próprio jornal discrimina as oito vítimas de Janeiro – oito e não nove – uma por uma. Ora, ficamos a saber de uma vítima de Santarém, assassinada por desconhecido, suspeitando-se de que seria prostituta, e de uma mulher de Almada, morta por desconhecido, adiantando o jornal que se suspeita de crime passional. Dois casos em que o ou os agressores, ou mesmo a ou as agressoras são desconhecidos, dificilmente se enquadrando na violência doméstica. Num terceiro caso, na ilha Terceira, uma mulher com o marido preso, vivendo em casa da falecida sogra, foi espancada pelo cunhado que queria a casa para ele e acabou por morrer.

Ou seja, comprovadamente de violência doméstica tivemos, em Janeiro de 2019, cinco casos fatais, os mesmos, afinal de contas, que em Janeiro de 2018. Mas à conta do inusitado aumento para mais do dobro, tivemos uma reunião de emergência de três ministros com a Procuradora-Geral, promessas de aumento de fundos para formar, polícias, juízes, médicos e tutti quanti. Enfim, tudo a bem de causa justa.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com