“ Milagres” e solidariedade

Segunda-feira, 11 Outubro 2021
“ Milagres” e solidariedade

Costuma dizer-se que a solidariedade faz milagres, mas desta vez foram os “gémeos milagre” e os seus pais que nos trouxeram a melhor expressão da solidariedade.

Há dias decorreu em Évora o evento “Kms solidários”, um evento que não classificaria de desportivo, apesar da participação de cerca de 400 eborenses que durante 12 horas correram, andaram ou pedalaram, mas que foi antes uma acção de grande solidariedade para com o Serviço de Neonatologia do Hospital do Espirito Santo.

Tratou-se de um evento de angariação de fundos destinados à aquisição de equipamentos, uma iniciativa promovida por um jovem casal que, tendo vivenciado a experiência de ter gémeos prematuros que permaneceram no serviço de Neonatologia do HESE quase dois meses, constatou como o hospital está deficientemente equipado: Os berços são antiquados e o equipamento de rastreio auditivo é velho e obsoleto, quando é da maior importância dispor de equipamento moderno para a detecção precoce de problemas auditivos em bebés prematuros.

O gesto de cidadania dos pais destes gémeos, a que no Hospital chamaram “gémeos milagre”, só pode merecer o nosso aplauso, mas veio também trazer ao de cima, mais uma vez, as dificuldades com que se confronta o serviço de Neonatologia, único no Alentejo e de que tantas vezes se tem falado.

Trata-se de um serviço com excelentes profissionais, que têm mostrado uma enorme dedicação, mas que ano após ano se vê confrontado com a redução de médicos e dificuldades enormes em assegurar os serviços de urgência. Também eles no dia a dia do Hospital fazem o milagre de responder às necessidades da população com os poucos recursos disponíveis.

Por várias vezes nos últimos anos interpelámos a Administração do Hospital sobre a situação do serviço pediatria e a Neonatologia e sobre a e carência de pessoal e sempre se alinharam justificações quanto às dificuldades de recrutamento.

Mas desta vez não é disso que se trata. O que está em causa é a falta de equipamentos e a obsolescência dos existentes. Ora, equipamentos podem ser adquiridos no mercado, assim haja empenho e vontade política para reforçar a resposta do HESE em matéria de saúde dos bebés prematuros.

Também não se diga que o “novo hospital” terá novos equipamentos, porque essa justificação não serve. Equipamentos são precisos agora e devem ser adquiridos agora, porque nada impede que mais tarde sejam transferidos para as novas instalações.

O Serviço de Neonatologia do Hospital do Espirito Santo é um serviço vital no Alentejo e os nossos profissionais de saúde devem ter à sua disposição os equipamentos adequados ao melhor exercício da sua função, como os nossos bebés prematuros e as suas famílias têm direito, como os de qualquer outro hospital de uma grande cidade, a um serviço dotado do equipamento necessário, moderno e não obsoleto.

É importante ter a sociedade mobilizada para a resposta a problemas que nos afectam e poder contar com iniciativas e gestos solidários, como os dos pais dos “gémeos milagre”, mas isso não pode alijar as responsabilidades de quem tem o dever de garantir a melhor saúde, neste caso, aos nossos bebés prematuros, porque uma falha pode comprometer definitivamente o futuro destas crianças.

E essa responsabilidade, quer se queira quer não, é do Hospital do Espírito Santo e do Ministério da Saúde.

Até para a semana!

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