Moinhos que moem…

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 06 Outubro 2022
Moinhos que moem…
  • Sara Fernandes

 

 

Atente bem, Vossa Mercê. O que se descortina além fora não são gigantes, mas moinhos de vento. E o que parecem braços não são senão as velas que, sopradas pela aragem, fazem girar as mós.
— Bem se vê que és um pexote em matéria de aventuras. São gigantes, que to digo eu. Se tens medo, põe-te de largo e reza enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.

In D. Quixote de la Mancha, Capítulo VIII

O Alto de S. Bento e o seu Núcleo Molinológico fazem parte da paisagem que qualquer eborense tem no coração. Para ali se vai espairecer, para ali se vai correr, passear, para ali se rumava para comer o Borrego da Páscoa quando a tradição ainda era o que era.

Este local faz parte do nosso património cultural e natural e tem assumido, ao longo dos anos, maior ou menor centralidade nas actividades do município.

Aproximando-se uma nova fase deste Núcleo, convém recordar um pouco da história da sua recuperação e apontar caminhos desejáveis e sobressaltos a evitar.

Estávamos em 1999 e, como é costume nestas coisas, várias vontades convergiram para o Alto de S. Bento. Do projecto educativo municipal “A Escola adopta um monumento” até ao Museu Nacional de História Natural, passando pelo (ou assentando no) ilustre eborense, catalisador-mor de vontades e amores em prol da ciência e da comunidade, o Professor Galopim de Carvalho, foi projectado o Núcleo Museológico do Alto de São Bento, com a recuperação, na primeira fase, dos dois moinhos dedicados, um, à geologia e mineralogia do granito e, outro, à flora. Com a inauguração em 2001 destas duas vertentes, centrou-se a actividade educativa municipal, na sua componente ambiental, neste espaço e por ele passaram milhares de crianças (e não só crianças).

Infelizmente, desde essa altura, (o que terá mudado? O que terá feito parar esse projecto?) assistimos à deterioração do terceiro moinho, sem que o plano iniciado em 1999 fosse equacionado. Terão os moinhos uma cor partidária? Será a mesquinhês política pequena ao ponto de mandar abaixo um projecto desta natureza, só porque foi iniciado por um executivo de outra cor?

Não resisto à quadra popular

Eu donde estou bem vejo

Dois moinhos a moer;

Um anda, outro desanda,

Assim faz o bem querer.

Mas hoje o dia é de festa! A recuperação do terceiro moinho para a função de moagem de cereal, com toda a componente técnica recuperada da forma tradicional, está praticamente concluída. As sinergias foram potenciadas, o vento já sopra nas velas e a mó já mói.

O grupo de discussão criado para acompanhar a obra e pensar o projecto educativo que a acompanha focou-se sobretudo no tema do pão e do seu valor ancestral: da dureza do trabalho no campo, até à qualidade da alimentação, passando pela sustentabilidade do projecto em si. Quer-se que este espaço seja de todos, que cada um o proteja como seu e que daqui nasçam projectos de futuro. Ao património histórico e cultural que se nos apresenta quando olhamos dali a cidade intramuros, uma nova centralidade se vem juntar, o património etnográfico, ambiental e paisagístico que ali se sente. Quem sabe, se não virá a ser igualmente classificado património da Humanidade.

Que os ventos sejam os que andam e não os que desandam!

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