Morreu Gonçalo Ribeiro Telles

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 12 Novembro 2020
Morreu Gonçalo Ribeiro Telles
  • Alberto Magalhães

 

 

Morreu ontem, com 98 anos, o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, um dos homens realmente admiráveis deste país, persistente e honesto batalhador pela integração dos espaços verdes na paisagem urbana, mas também lutador contra o Estado Novo salazarento. Depois do 25 de Abril de 1974, a ele se deve um conjunto de legislação na área do ordenamento do território e da protecção da natureza. Criou a Reserva Ecológica e a Reserva Agrícola Nacionais, os Planos Regionais de Ordenamento do Território e os Planos Directores Municipais, que, apesar de muitas vezes subvertidos, sempre vão impedindo atentados maiores ao património natural e à paisagem.

Depois de ter sido secretário de Estado do Ambiente em 1975-1976, no V e VI Governos Provisórios, funda em Évora o curso de arquitectura paisagista, que durante décadas forneceu o país de profissionais capazes de fazer mais do que embelezar com relvados e canteiros os interstícios da malha urbana. Infelizmente, Ribeiro Telles morre precisamente no momento em que a Universidade de Évora declara o curso como moribundo, por falta de alunos. Haverá que perceber as causas do desinteresse.

Nos idos de 1986-87, tive a sorte de assistir a algumas aulas do arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, no âmbito de estudos de Ecologia Humana, também na Universidade de Évora. Entre as muitas reflexões que a sua voz inspirada propiciava, lembro-me particularmente de ele referir que os portugueses, ao abandonarem o interior, para viverem praticamente todos à beira-mar, tornavam inevitável a deslocação da fronteira terrestre, cedendo aos espanhóis o território. Pareceu-me, na altura, excessivo.

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