Morreu Vasco Pulido Valente

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 24 Fevereiro 2020
Morreu Vasco Pulido Valente
  • Alberto Magalhães

 

 

A morte de Vasco Pulido Valente, como é hábito em Portugal, gerou unanimidade à sua volta. O homem era um génio, a sua prosa só tinha paralelo na do Padre António Vieira ou na de Eça de Queiroz, a sua intuição política era superior. Para mim, mais que ser perfeito, o homem era um desafio e um catalisador do pensamento. Na verdade, era pelo seu Diário que começava a minha leitura do Público, aos sábados. Para discordar, muitas vezes, para me retorcer todo quando me obrigava a dar-lhe razão sem a mínima vontade. Para me identificar, às vezes.

Por exemplo, em 16 de Novembro último, ele escreveu: “à velocidade com que fala, é impossível que Catarina Martins pense no que diz”. Como eu me senti compreendido, eu que digo muitas vezes “fulano fala mais depressa do que pensa”. São cada vez mais, aparentemente bem adaptados ao tempo mediático.

Na última crónica de VPV, publicada a 25 de Janeiro, a derradeira entrada do seu diário, de dia 23, a propósito do escândalo Watergate e da impugnação de Nixon, terminava assim: “A mim estas coisas fazem-me bem, lembram-me os bons anos e o imbecil que eu era nessa altura”.

Os que insistem em não renegar nada do que pensaram, defenderam ou fizeram no passado, mesmo quando o tempo mostrou quão errados estavam, ou dos que elogiam a coerência de determinada pessoa, mesmo quando ela não significa senão uma incapacidade de perceber as asneiras cometidas, deviam pôr os olhos no Vasco.

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