Mudar de espelho é preciso

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 08 Março 2018
Mudar de espelho é preciso
  • Eduardo Luciano

 

 

Na passada semana estive presente na Bolsa de Turismo de Lisboa, em representação do município de Évora.

Sempre olhei para aquela representação como algo necessário e importante, apesar do circo que a rodeia com as feiras de vaidades associadas, da busca do brinde e da promoção e do ruído ensurdecedor do cruzamento da escola de samba com o rancho folclórico.

Nos últimos anos Évora fez um esforço significativo para ter um balcão integrado na região Alentejo, como forma de afirmar o território como sítio de visita obrigatória a quem pretende conhecer uma realidade construída ao longo de mais e dois mil anos.

Este ano permaneci mais tempo do que o habitual e isso resultou numa melhor percepção do que resulta dos atendimentos e encontros proporcionados pela presença no certame.

Houve um pouco de tudo, desde o investidor que pretende construir um hotel até ao reformado que foi à procura de um lápis para oferecer aos netos, passando pela artista que quer vender um espectáculo ou um animador de programas de rádio e televisão que quer fazer acontecer um festival.

Todos eles descreveram a nossa cidade como algo de único, elogiaram o que viram acontecer e manifestaram um respeito quase reverencial quando se referem a Évora.

Para quem passa os sete dias da semana em Évora a ouvir ou percepcionar as impressões dos que cá vivem sobre a cidade, este olhar de quem está de fora é uma lufada de frescura e uma forma de aliviar a sensação de claustrofobia que muitas vezes nos assola.

De repente é como se mudassem o espelho e passamos a ver-nos com olhos que descobrem tudo o que de positivo temos para oferecer. De repente percebemos que o atendimento a alguém que quer construir mais um hotel se deve à enorme capacidade de atracção da cidade, que a artista quer actuar em Évora porque assistiu a um dos muitos espectáculos do Artes à Rua e se emocionou com o ambiente único que as ruas e praças emprestam a quem apresenta as suas criações.

Por vezes temos mesmo que sair daqui para que o espelho dos olhos dos outros nos faça ver a realidade e não a perspectiva distorcida pelo azedume residente ou pela sempre atenta polícia dos costumes.

Soube-me bem, enquanto residente deste território, ouvir o que ouvi sobre a cidade onde vivo e perceber que somos muito melhores do que o espelho da sala escura nos quer fazer crer.

É preciso e urgente mudar de espelho, sem deixar, obviamente, de manter o espírito crítico e a exigência que nos faz querer ser uma cidade melhor.

Até para a semana