Nascer ou não mulher não é (a) questão

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 09 Março 2023
Nascer ou não mulher não é (a) questão
  • Alexandra Moreira

 

 

Não, não estou enganada no calendário, bem sei que o Dia Internacional da Mulher já passou. Hoje é o Dia Mundial do “DJ” e amanhã é o Dia Mundial do Telefone.
Passado todo o alarido que consumiu o dia de ontem, talvez agora se possa refletir sobre o sentido da efeméride.

Neste canto do mundo das democracias ocidentais assentes nos direitos, liberdades e garantias, os nossos “dias-de-qualquer-coisa” são dominados pelo oportunismo institucional e comercial. O Dia da Mulher não é exceção – é, antes, a maior expressão dessa parafernália costumeira.

O dia começa cedo com as redes sociais e os media insuflados de exaltações ao feminino, as caixas postais enchem-se de uns desconchavados “Parabéns” e “Feliz Dia da Mulher”, muitas ofertas comerciais, e prossegue, por entre distribuição de gerberas e confraternizações de mulherio.

Aparentemente comemora-se o resultado da lotaria genética de se ter nascido mulher. E não há forma de uma mulher inserida na sociedade se conseguir esquivar a todo este assédio.
É difícil de imaginar cenário mais inadequado, considerando a origem da efeméride, inspirada na luta das mulheres nova-iorquinas que, no início do século XX, arriscaram a sua segurança pessoal, reivindicando melhores condições de trabalho e o direito ao sufrágio.

Todas as individualidades querem provar, nesse dia, ser mais feministas do que Simone de Beauvoir. O Primeiro-Ministro foi almoçar com 100 mulheres cientistas; porquê 100, não sei dizer, talvez fosse o limite da capacidade do restaurante. Já o Presidente da República foi-se encontrar com mulheres sem-abrigo, que sempre lhe renderam mais uns quantos dramas, abraços e beijinhos, e muitas selfies.

Ouvi na rádio um empregador do setor têxtil gabar-se de só contratar mulheres, algo que aparentemente é de enaltecer; fiquei a pensar no que seria se a exclusividade fosse masculina.
Todos falaram muito de igualdade, que tarda a efetivar-se. Dou fé. Nenhum homem passa o tormento de um dia como este só por ser homem.
Contrariamente à realidade discriminatória e mesmo opressiva de outras latitudes, leis de paridade já nós temos e até temos instituições que velam por esse princípio. Sabemos, no entanto, que ainda há muito a fazer.

 

Em Portugal, estima-se que sejam necessárias três décadas para que uma mulher receba o salário médio pago a um homem nas mesmas funções; por sua vez, só 6% das mulheres ocupam cargos de liderança nas empresas.

Considero que muito para lá da promoção de políticas públicas mais ou menos paternalistas, a questão da igualdade não se esgota na atuação do Estado e das coletividades públicas e privadas.
A mudança começa na nossa própria casa. Compete a cada mulher, na sua esfera de vida privada, saber valorizar-se e reivindicar a necessária igualdade na partilha das tarefas domésticas e das responsabilidades parentais.

As mulheres são discriminadas no acesso ao trabalho, não tanto pela possibilidade de engravidarem, mas sobretudo porque serão sempre e só elas a faltar ao trabalho, daí em diante, para cuidar dos filhos. A licença parental partilhada é rara e, em situação de doença, as crianças só têm mãe. São também só elas a requerer os horários flexíveis e as reduções de horário para acompanhar os filhos.
São as próprias mulheres a replicar o modelo patriarcal que lhes impõe maiores responsabilidades em casa e no tratamento dos filhos e, como tal, menor disponibilidade para o mercado de trabalho.
E nada vai mudar enquanto se limitarem a comemorar o Dia da Mulher a receberem florzinhas e, para as mais afortunadas, a caridosa dispensa da lida doméstica.
Até para a semana.

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