Nasceu na China, mas não é chinês

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 07 Maio 2020
Nasceu na China, mas não é chinês
  • Alberto Magalhães

 

 

Ontem, os media noticiavam o pânico que grassa entre os índios da Amazónia, por temerem o pior em relação ao coronavírus. Não admira, pois desde que Cristóvão Colombo aportou na costa americana, milhões de indígenas foram dizimados por doenças europeias como a varíola, o sarampo, o tifo ou cólera e, mais tarde, com a importação de escravos negros, doenças africanas como a malária, a dengue ou a febre amarela.

Sempre me fez confusão a evidente falta de reciprocidade deste negócio. Se os índios morriam por não terem defesas contra doenças – para eles – desconhecidas, por que razão não acontecia o mesmo aos europeus? Seria a América pré-colombiana um paraíso sem infecções maliciosas? Agora, venho a descobrir que, ao contrário do que se pensou durante muitos anos, existem algumas evidências de que a sífilis seria uma doença americana, que poderá ter sido transportada para a Europa pelos marinheiros de Colombo.

Curiosamente, as epidemias virais que têm atacado a Europa de há 100 anos para cá (e se calhar muito antes), todas parecem vir do Extremo Oriente. A Gripe Espanhola de 1918 – que causou no mínimo 50 milhões de mortos – terá começado no final de 1917 numa província chinesa. Nenhum espanhol se terá sentido vítima de racismo. Eu e a minha família quase toda fomos atormentados pela gripe asiática, em 1957. Ninguém viu racismo na designação. Em 2002, a SARS e, em 2009, a gripe das aves, vieram da China. O actual coronavírus também. Mas se eu lhe chamar “vírus chinês”, o que, sem dúvida é, poderei ser (é quase certo) acusado de racismo. Querem que lhe chame Nova Gripe Espanhola?

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