“No Namoro só Bate o Coração”

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 22 Fevereiro 2021
“No Namoro só Bate o Coração”
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Fui buscar o título desta crónica “No namoro só bate o coração” a uma campanha que o Bloco de Esquerda lançou em 2016 junto das escolas e que acho especialmente inspirador.

A violência doméstica, de que muitas vezes tenho falado, e a generalidade dos comportamentos abusivos não são exclusivos de relações adultas e, pelo contrário, tem muitas vezes a sua génese muito precocemente na fase de namoro.

É um fenómeno que escapa à maioria dos adultos que convivem com os jovens, sejam professores sejam os familiares e encarregados de educação, até porque muitas das vezes os próprios jovens, em especial as vítimas, não identificam as práticas abusivas, considerando-as “normais”.

O controlo, seja da maneira de vestir, das conversas, dos telemóveis e das mensagens ou das redes sociais, seja dos amigos e amigas, o ciúme, a agressão verbal, a violência física ou sexual, a ameaça, a humilhação pública, a perseguição, a crítica negativa não podem ser consideradas amor, são formas de violência praticadas sobre a namorada ou namorado.

E muitos jovens não sabem mas muita da violência no namoro é também ela crime e deve ser denunciada.

Porque o dia de S. Valentim deve ser também um dia de reflexão, há alguns dias foram apresentados os resultados do estudo nacional sobre violência no namoro em 2020, que a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, tem vindo a realizar anualmente, desde 2017.

Este estudo, que foi realizado através de um questionário de respostas fechadas e em que nunca foi perguntado se o ou a jovem era vítima de violência no namoro, numa amostra de 4.598 jovens, entre o 7º e o 12º anos.

Os resultados vieram confirmar uma significativa dimensão deste fenómeno, e os dados relativos ao distrito de Évora confirmam que também este problema afecta os nossos e as nossas jovens.

Sobretudo preocupante é o facto de grande número de jovens não identificarem sequer estarem a ser vítimas ou a praticar actos de violência, que aceitam como naturais.

Segundo a UMAR 58% de jovens, até ao 12.º ano de escolaridade, reponderam já ter sido vitimas de pelo menos 1 forma de violência e 67% consideram normal algum dos comportamentos violentos.

Numa análise comportamento violento a comportamento violento e relativamente ao distrito de Évora, conclui o estudo que 29% dos jovens não reconheceram como sendo comportamentos violentos os comportamentos associados ao controlo que sobre eles ou elas é exercido pelos namorados, 26% não reconheceram como violência a perseguição e 22% não reconheceram a violência sexual.

O estudo dá-nos também dados sobre vitimização e mostra-nos que 11% dos e das jovens no nosso distrito foram vítimas de alguma forma de violência, seja violência psicológica reportada por 19%, seja violência sexual reportada por 8% dos jovens.

Mas apesar de o estudo demonstrar que há hoje maior consciência por parte dos jovens do que havia há uns anos sobre o carácter abusivo de certos comportamentos, eles reproduzem comportamentos legitimados pela sociedade e como se lê no estudo “O controlo, por exemplo, continua a ser para as/os jovens sinónimo de amor e preocupação numa relação íntima. Neste sentido, as conceções de género e de amor romântico que estão na base das relações de namoro ou de intimidade, e a naturalização de violências são ideias que, muitas vezes, são transmitidas às/aos jovens, seja através da interação entre pares, da escola, da família e dos media”.

É por isso da maior importância que se debata este problema, sobretudo na escola e envolvendo os jovens, mas também na família e entre os próprios jovens se debata, porque só assim será possível criar consciência e se poderá combater a cultura de violência nas relações de intimidade e de género, que infelizmente ainda marca a nossa sociedade e que a cada ano têm criado tantas vítimas mortais.

Até para a semana.

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